O CORPO CONHECIDO
Por Maria Clara Resende
O amanhecer desabrocha, e as longas fileiras retinem, longínquas,
nas vidraças da sala da frente. Passa um camião
e o soalho estremece.
É hoje.
Lá fora as casas cospem as gentes para a rua na azáfama
azul do quotidiano matutino, os céus ainda vermelhos da
paixão da noite.
Algures na manta morna persiste um cheiro a mel, mel achado nos
favos do fel. Não penso. Pensar é desistir do momento,
passar as coisas para o reino irreal do futuro. E ontém
só subsiste nesta maciez emprestada à pele, e no
cheiro que veio perfumar a minha aurora.
Passa o padeiro. A varina apregoa sua presença enquanto
os sacos de papel castanho rangem com o trigo da manhã.
Alhures uma criança chora, relutante em abandonar a chupeta,
o sono e o sonho. As portas abrem para logo encerrar. É
assim o fado delas. Até as portas o cantam
.
É inverno. A merceeira acende uma fogueira numa lata no
passeio e a casa enche-se do cheiro acre de fumo, acre como o
sémen dos sentidos derramados.
Envolvo-me no refúgio da manta, nariz empurrado para dentro
da concavidade da Alma. Tal a criança, não largo
o sonho do odor que permeia esta minha manhã.
Mas o ar da neblina já a areja. Talvez aqui no leito do
meu peito, entre o suor do calor nocturno, nas axilas, nesta compressão
obstinada ainda presente nas minhas coxas ele permaneça
.
O vermelhasco da aurora cede lugar ao sol e aqui me encontro no
agridoce momento do lento saborear.
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