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O Talismã
Conto
Por Fernando Feliciano de Melo
(Da Antologia "Folhas Levadas
p'lo Vento")
Na orla do deserto, onde uma suave colina se estendia até
ligar-se a outras que iam perder-se de vista nas montanhas distantes,
existia um pequeno povoado de poucos recursos.
A sua maior importância consistia de ser aquele um dos
últimos pontos onde um ser humano ou outra qualquer criatura
vivente, poderia encontrar um tecto para se abrigar dos raios
intensos do Sol, ou um poço onde matar a sede, antes
de penetrar no infindável oceano de areia, que se estendia
a perder de vista.
Muitas caravanas ao longo dos anos, costumavam agrupar-se no
local. Vindos de outras terras, pequenos bandos - que sós
não ousariam tentar a travessia - esperavam ali, até
um dos guias ter um número conveniente de mercadores,
para se porem em marcha.
Pelo espaço de alguns dias, havia uma certa actividade,
ligada aos últimos preparativos da partida; era um homem
que se ajustava por um determinado preço, a seguir como
ajudante de mercador ou a aquisição de fardos
de figos, tâmaras secas, ou ainda de um ou dois odres
de água potável para a jornada...Medidas sempre
difíceis de ajuizar e que apenas os olhos experientes
daquelas águias do deserto, condutores de homens e animais,
para quem as cargas tinham de ser balançadas com as resistências
dos camelos, podiam aconselhar ou rejeitar.
Uma vez a caravana em marcha, tudo no lugar voltava à
costumeira monotonia, que só seria quebrada pelo alvoroço
de outra caravana.
Para o rapazio do lugar, as chegadas, como é lógico,
eram mais importantes que as partidas.
Tal como os marinheiros ao desembarcarem num porto, após
visitarem terras longínquas, também os mercadores
e peões tinham sempre histórias maravilhosas para
contar, trazidas de lugares exóticos em países
distantes, as quais deixavam boquiabertos os jovens ouvintes,
para quem as notícias do mundo se limitavam aos contos
e descrições dos viajantes.
No momento em que decorre esta narrativa, uma densa nuvem de
poeira elevava-se no ar da tarde, seguida de uma tumultuosa
algaraviasa, indícios percursores da chegada de uma caravana.
O camelo da dianteira, de uma longa fila, atingia já
as primeiras habitações do lugar.
Cobertos de pó - que lhes dava às caras contornos
grotescos - os mercadores em breve eram rodeados pelo rapazio
e pelos cães, que formavam uma espécie de cortejo
de boas vindas.
Em breve seria noite, porém nenhum dos rapazes à
volta estava pensando em recolher cedo a casa; havia sempre
muito para ver e ouvir até a fadiga tomar conta dos viajantes.
Como sempre, estes seriam os primeiros a sucumbir ao cansaço,
exaustos por um longo dia de marcha debaixo do implacável
Sol do deserto.
Na ampla estalagem do povoado, rapidamente eram iniciados os
preparativos para acomodar tão grande número de
homens e animais nas melhores condições.
No pátio ardiam já as primeiras fogueiras. Em
contraste com o intenso calor do dia - as noites nas regiões
do deserto eram frias.
Os servidores estendiam pelo chão esteiras de junco,
onde iriam ser dispostas as comidas e bebidas para os viajantes,
aguardando apenas o final das abluções inadiáveis
dos recém-chegados, para começarem a servir a
repasto.
***
Junto a um dos arcos exteriores do pátio da estalagem,
dois jovens do lugar, atentos, encontravam-se imiscuídos
num grupo de mercadores a ouvir a história que um deles,
com certa mestria estava a contar - uma narrativa fascinante,
entremeada de magia.
Eram esses dois rapazes amigos de infância, mais ou menos
da mesma idade, porém com estaturas e feições
bastante diferentes. O mais alto - Assad - tinha todos os traços
de um filho do deserto, pele escura, cabelos pretos e lustrosos
e uns olhos extremamente vivos e penetrantes. O nariz ligeiramente
curvado, com narinas rasgadas que se abriam sobre uns lábios
grossos, emoldurava uma boca com dentes brancos e incisivos,
que tinham algo de animal de presa. Completava o último
retoque na descrição das feições
deste jovem, uma barba irregular.
Quanto ao físico, era possuidor de um corpo musculoso
e bem proporcionado. No que tocava ao carácter, Assad
possuía uma vontade dominadora, que por vezes lhe acarretava
dissabores e lutas com os companheiros do lugar, que aos poucos
haviam começado a desviar-se da sua presença.
O único que ainda se mantinha fiel à amizade
de infância que os unira a todos, era Amal. Não
fora pela sua companhia, o outro seria um solitário,
escorraçado pelos restantes rapazes da sua idade.
Ao contrário do amigo, Amal tinha um temperamento dócil
e sonhador. Muitas noites, quando já todos dormiam ao
redor, enrolado na sua manta de lá, deixava-se ficar
por horas a contemplar as constelações no céu
do deserto, que devido à rarefacção própria
do lugar, têm um brilho e nitidez, difíceis de
obter ou igualar em outros lugares da Terra.
Aqueles mundos estranhos de beleza incomparável atraíam-lhe
a imaginação, levando-o em viagens pelas estrelas,
que fariam a inveja de um moderno astronauta.
Amal era baixo e de feições regulares sem muito
para salientar, excepto pela serenidade dos olhos. Estes, que
o vulgo diz serem o espelho da alma, eram nele, o mais belo
atributo que possuía. Enquanto Assad, podia fazer gelar
o sangue de alguém, com um dos seus olhares penetrantes,
Amal estendia através dos seus, uma ponte segura, entre
si e quem estivesse a falar com ele ou necessitasse da sua ajuda.
Todos gostavam dele no pequeno povoado.
Vivia com uma velha avó, que o criara e amava com devoção.
Para ela, o jovem era um anjo, que Alá se dignara conceder-lhe.
Sem ele a sua existência teria acabado há muitos
anos. O rapaz por seu turno, tinha a avó acima da sua
própria vida.
***
As chamas crepitantes da fogueira arrancavam cintilações
estranhas aos olhos brilhantes de Assad, embebido na narrativa;
os de Amal estavam perdidos num ponto vago, que podia estar
junto do mercador a contar a história, como a centenas
de quilómetros de distância.
A fabulosa narrativa, por longo tempo a prender a atenção
do grupo, que aos poucos fora aumentando, tal o interesse, constara
de um "talismã"e das propriedades mágicas,
que o narrador dizia serem-lhe atribuídas.
A partir do momento que a história tomara configuração.
Um desejo forte se estabeleceu no coração dos
dois jovens de correr em busca do valioso objecto. Em ambos
porém, os imperativos ligados a essa viagem pelo desconhecido,
eram diferentes e bem assim os desejos do que esperavam obter
do "Talismã, que a acreditar no narrador, podia
dispensar a quem o possuísse poderio e riqueza ou se
tal fosse outro o desejo, sabedoria e paz.
Assad, como seria de esperar do seu carácter, queria
poderio e riqueza, enquanto Amal, apenas sabedoria e paz!
Ao primeiro, nada o demoveria de abalar imediatamente; o segundo
teria de aguardar até que a avó não precisasse
mais dele, o que equivalia a uma espera indefinida.
No enorme pátio da estalagem havia começado já
a debandada; a noite ia avançada e a fadiga da viagem
tornava o descanso imperioso para os componentes da caravana.
A sós no caminho, enquanto rumavam para casa, os dois
amigos iam trocando impressões acerca dos eventos daquela
tarde extraordinária.
- Queres vir comigo à procura do "Talismã"?
Propôs Assad.
- Quando? Quiz saber Amal, que interiormente conhecia a resposta
do outro.
- Amanhã; só tenho de preparar umas poucas coisas
para a jornada; estarei pronto antes do nascer do Sol. Seguiremos
pela fresca... Há tantas montanhas por esse mundo fora,
dizem os homens das caravanas!... E o "Talismã"
encontra-se numa delas.
- Impossível, foi a resposta firme do companheiro - nunca
poderia abalar deixando a minha velhinha só.
- Não tens uma vontade forte, Amal!... - A mim não
haverá nada que me demova.
- Nem mesmo a tua irmã aleijada, que sempre tem dependido
bastante de ti? - Tua mãe para tomar conta dela e ganhar
o sustento de ambas, irá ter uma vida bastante difícil.
- Alá é grande e conhece as faltas dos seus filhos.
Ele poderá ajudar minha mãe e minha irmã
e ainda a tua avó, se te decidires a vir comigo; anda
toma uma resolução!
- A minha resolução está tomada! - Tal
como tu, irei por esse ""Talismã" - não
sei porém o dia da minha partida! Não penses que
o teu desejo de o possuir, é maior do que o meu; se me
decidi a ficar, é porque o tempo de poder dispor de mim,
ainda não chegou!
Interiormente Assad começava a sentir uma irritação
surda contra Amal, não tanto pelo facto de o amigo o
deixar seguir sozinho, mas pelas aguilhoadas que este lhe desferrara
na consciência, acerca da irmã e da mãe.
Antes de se separarem e como a tentar apaziguar as frustrações
que levantar no espírito torvo do amigo, Amal abraçou
o companheiro de tantos anos, dizendo-lhe:
- Sempre que possa, ajudarei os teus; Alá tem de servir-se
de algum braço à volta, para o fazer - penso que
poderá usar o meu!
Com voz embargada pela comoção, após ouvir
tão estranhas palavras, Assad correndo, talvez para esconder
a sua vergonha do amigo, disse:
- Ver-nos-emos um dia, prometo-te; até lá, boa
sorte!
Aquelas haviam sido as últimas palavras de um jovem
de corpo forte, que era porém fraco de espírito,
a um outro, que sendo de físico franzino, era forte de
coração.
Quando pela tarde do dia seguinte, Amal após ter ido
pastorear algumas cabras que possuía, regressava a casa
com o diminuto rebanho, estavam a esperá-lo à
porta, além da velha avó, a mãe e a irmã
de Assad, em cujas faces se podia ver dúvida e ansiedade.
Uma estranha ideia ocorreu-lhe rápida; o seu companheiro
fora-se sem nada dizer aos seus. Como seria possível
ao amigo cometer um acto tão vil, era uma coisa que a
sua alma pura não tinha possibilidade de compreender.
Intimamente o jovem esperava estar enganado nas suas conjecturas,
porém a realidade era mesmo aquela!
- Diz-me Amal, sabes para onde foi o meu filho?
- Em busca de um "Talismã", senhora. Tentei
demovê-lo dessa ideia temerosa e irresponsável,
mas tu sabes melhor do que eu, que ninguém tem poder
de subjugar-lhe a vontade.
- Que irá ser de nós, sem o seu braço forte
à volta? Gemeu a pobre mulher, apertando contra si a
filha aleijada, que se debulhava em lágrimas.
A rapariga amava o irmão, sentindo-se atraiçoada
pelo seu procedimento egoísta e desumana.
- Tereis o meu braço e o da minha avó. Não
será a mesma coisa, mas poderão ajudar-te na situação
em que te encontras. A tua filha ficará com ela durante
o dia, afim de poderes ganhar o sustento de ambas e à
noite virá por ela.
Levarei a pastar as tuas cabras junto com as minhas e qualquer
outro serviço que precise a mão de um homem, podes
contar comigo.
- Porque será, balbuciou a velha avó, a quem
duas pesadas lágrimas de gratidão a Deus, que
lhe havia concedido o tesouro que tinha por neto, não
fez as almas dos homens, todas iguais?
- Gostaria de poder tratar-te por filho, mas o meu cometeu uma
acção tão indigna contra mim, que esse
tratamento é quase como que uma ofensa, para uma alma
boa e digna como a tua!
Amal com um nó na garganta, depois de ouvir as angustiantes
palavras da pobre mulher, estendeu-lhe os braços, tomando-a
neles. Por um momento aqueles dois corações bateram
em uníssono; a comoção não o deixava
falar - quando por fim o conseguiu, o jovem, após depositar
um beijo na face da sua nova mãe, com um sorriso terno,
disse-lhe: - Podes sem ofensa tratar-me como se fosse o teu
filho, eu tratar-te-ei, como a mãe que nunca conheci.
Depois desse primeiro dia, uma vida diferente começou
para aquelas quatro almas, que iria sujeitar-se a algumas adaptações.
Por seu intermédio, o braço de Alá ia operando
os milagres, conforme mencionara a Assad, na noite daquela despedida
funesta.
***
Para Amal os anos ia decorrendo vagarosamente, com a avó
a ficar mais velhinha e o desejo de encontrar o "Talismã",
ao contrário de desvanecer, a tornar-se cada dia mais
forte.
Era agora um homem feito, admirado e respeitado por toda a
gente da terra.
Uma tarde, com a chegada de uma caravana, quando Amal se encontrava
à sombra, no pátio da sua casa, com as três
mulheres que tinha a seu cargo, uma notícia chegou tumultuosa:
- Assad voltou!... Assad Voltou!...
Num ápice, como se fossem molas, todos se puzeram de
pé. Um grupo rodeando Assad, acabava de entrar no recinto.
Um grito escapou-se do peito da mãe da jovem deformada.
A rapariga, sem perceber bem o que estava a passar-se, fitava
com os olhos desmesuradamente abertos o recém-chegado,
que não era o irmão por ela esperado e sim o pai,
que mal se lembrava de conhecer, desaparecido há muitos
anos, quando se alistara numa caravana ao serviço de
um mercador.
***
Cinco anos estavam a completar-se, desde a partida do amigo,
sem que alguém trouxesse a mais pequena notícia
acerca dele. Era como se a terra o houvesse tragado.
A família do seu colega de infância, para quem
fora um dos principais esteios naqueles longos e tristes anos,
com a chegada do velho Assad ia levando agora uma vida mais
desafogada. O homem amealhara algum dinheiro, que empregara
na compra de um rebanho.
Uma manhã, quando Amal se prepara para sair com as suas
cabras, ao despedir-se da avó, esta tomou-lhe a mão
e com um ar grave disse: - Meu filho, eu tive um estranho sonho
esta noite. Vamos ambos partir de viagem, Alá mostrou-me
os caminhos. Eu seguirei pela noite, através da planície,
enquanto tu, à luz clara do Sol, irás pelas montanhas,
em busca do teu "Talismã"!
- E quem te ajudará na caminhada, querida avó?
Já quase te não aguentas de pé sozinha,
tentou gracejar Amal, que sentia um nó na garganta!
- Não te rias nem temas por mim, meu anjo!... - Desta
vez vou poder caminhar sem o teu auxílio - acredita-me!
Aquelas palavras estranhas, o jovem sentiu a pele arrepiar-se.
Elas iam para além da trivialidade de um sonho!
- Como soubeste que teria de ir pelas montanhas em busca de
um "Talismã"? Se nunca te falei acerca dessa
ocorrência.
- Acaso não foi essa a história que ouviste na
estalagem?
Amal não sabia que pensar; os olhos bondosos da avó,
tinham uma expressão sorridente e ao mesmo tempo séria,
que não deixavam persistir dúvidas acerca do conhecimento
daquela interrogativa, a todos os títulos inexplicável.
Ela não havia estado lá e ele nunca lhe falara
da ventura, receoso de que o seu conhecimento pudesse fazê-la
sentir-se um estorvo. - De onde lhe viera então o conhecimento
das montanhas? O mercador da narrativa fora claro: - "Nas
montanhas de uma terra distante, existia um Talismã,
à guarda de um mágico, que proporcionaria poder
e riqueza ou sabedoria e paz, a quem o possuísse."
Como teria aquele corpo alquebrado pelos anos e sem contactos
com ninguém, chegado ao conhecimento dos seus mais íntimos
segredos?...
- Talvez, conforme lhe acabara de revelar, Alá a tivesse
visitado nos seus sonhos, para Ele nada era impossível!
*
Tomado de profunda comoção, o jovem apertou o
corpo mirrado da avó de encontro ao peito, sentindo a
alma encher-se-lhe de tristeza.
- Querida, disse Amal - alguma coisa que não sei explicar,
está a acontecer entre nós... Alá não
costuma visitar os mortais sem um propósito.
- Quero que saibas porém, que não trocaria um
dia da tua vida, por nada deste mundo, nem mesmo por esse talismã,
que pode não passar de uma fantasia.
- Sempre o soube, meu anjo; quanto a essa fantasia - só
está à espera que a tua tenacidade a torne uma
realidade, - murmurou a velha olhando para a porta, onde a figura
de Celina, apoiada a uma vara, acabava de aparecer.
- Toma conta dela, Celina, não a acho muito normal esta
manhã. Talvez tivesse tido um pouco de febre durante
a noite; prepara-lhe um caldo.
- Vai descansado, cuidarei dela o melhor que puder.
Com as últimas recomendações, Amal depois
de beijar as duas mulheres, dirigiu-se para a porta. Quando
já se encontrava no limiar, a avó em voz fraca,
ofereceu-lhe um derradeiro e precioso conselho: - Meu filho,
as montanhas dessa "terra distante", onde o "Talismã""
se encontra, são uma alegoria à felicidade e ao
homem - tanto pode ela estar ao seu alcance, ou nunca ser encontrada
por ele!... - Precisas ser tenaz no teu esforço.
Com um arrepio a percorrer-lhe a espinha, o rapaz que tentava
encontrar uma explicação para o inexplicável,
deixou a casa e aqueles dois seres que amava enternecidamente,
sentindo um peso no coração.
Ao regressar, Celina chorava, segurando nas suas, a mão
da sua velha amiga, fria e sem vida. As lágrimas de ambos,
rolaram sobre o pergaminho daquelas peles velhas e enrugadas,
misturando-se num derradeiro tributo de amor e saudade.
Conforme previra, a sua bondosa ave iria viajar pela noite,
através das planícies eternas, onde não
precisaria a sua ajuda para se arrimar. Lá fora as primeiras
estrelas começavam a brilhar no firmamento.
Era finalmente um homem livre, para realizar os seus sonhos,
por tantos anos adormecidos - porém o apreço,
Santo Deus! Nunca o imaginaria tão pesado!...
***
Antes de partir para a sua aventura, Amal propuzera ao velho
Assad, vender-lhe as suas poucas cabras, ficando surpreendido
e sensibilizado com a resposta deste:
- Alá nunca me receberia se o fizesse. - Serão
minhas, para cuidar delas enquanto durar a tua jornada, quando
voltares, tê-las-ás de novo; Celina irá
uma vez por outra a tua casa, para que tudo esteja em ordem
a qualquer tempo que regresses. - Não esperamos que a
tua ausência seja tão prolongada, como a desse
filho de coração empedernido, que abandonou a
família por um capricho. - Preferia não voltar
nunca a vê-lo de regresso!
- Não blasfemes Assad! - Alá poderia receber-te,
comprasses-me as cabras ou não, porém nunca o
faria, se não perdoasses ao teu filho. - Quem sabe, o
que lhe terá acontecido por esse mundo fora? - Pode até
ter expiado já o seu crime, mais de uma vez, o que não
lhe evitará a terrível dúvida, de um dia
poder obter o vosso perdão no regresso.
Assad não pode mais do que prometer reconciliar-se com
o filho, caso ele voltasse. Não queria deixar partir
aquela jóia de bondade, na incerteza do que seria o regresso
do primogénito, a um lar que lhe cerraria as suas portas.
- Perdeste a tua avó, meu filho, disse a mulher de Assad,
beijando-o, mas terás sempre aqui uma família
à tua espera. Após retribuir o beijo da sua mãe
adoptiva, o jovem abraçou o velho Assad.
Feliz por deixar as coisas neste pé, Amal foi despedir-se
de Celina, que se encontrava voltada para a parede, sem coragem
de o fitar, procurando esconder o seu pranto silencioso, que
lhe queimava os olhos e amarfanhava o peito, onde trazia escondido
um amor profundo por ele, o qual a todo o custo procurava guardar
secreto - envergonhada da sua perna atrofiada.
Tomando-lhe o rosto delicado nas mãos e levantando-o
carinhosamente, para que os olhos de ambos se fitassem, este
sussurrou-lhe aos ouvidos, as mais belas palavras que ela já
ouvira em sua vida: - Celina, Por ti meu doce amor, voltarei
cedo. Não me esquecerei de ti, minha rolazinha ferida!
***
Sentado num penhasco, ao abrigo de uma ravina, Amal por um
momento fechou os olhos. Achava-se extremamente cansado e a
tentação de se deixar adormecer, começava-lhe
a assediá-lo; tinha de lutar para se manter desperto.
A meio de uma montanha e com a tarde a avançar, precisava
descobrir qualquer gruta ou na falta desta um recesso, onde
pudesse passar a noite, protegido do frio cortante das alturas,
ou descer, enquanto ainda podia enxergar onde ponha os pés.
Por vezes chegava a duvidar se teria valido a pena todo o sofrimento
e canseira de tão longa jornada. O pensamento em sua
avó e Celina, era o único sustentáculo,
que o encorajava a prosseguir; talvez fosse ainda um pouco cedo
para aceitar a derrota.
A mensagem sobrenatural sonhada pela sua velhinha e o seu último
conselho, pesavam-lhe na decisão de prosseguir.
Ia para um ano que deixara o seu povoado; Celina iria em breve
completar dezoito anos. Gostaria de estar presente por essa
altura; amava aquela bonita rapariga, que corajosamente lutava
para ser normal, apezar de ter uma perna atrofiada. Num gesto
maquinal o jovem apalpou o saco junto de si, onde guardava uma
preciosa lembrança para a sua amada.
Disposto a encontrar um abrigo antes da noite, Amal pôs-se
de novo em marcha. Após ter percorrido dois ou três
quilómetros e ao contornar uma escarpa, topou aquilo
que procurava. Na parede viva da montanha divisara a entrada
de uma gruta.
Pequena, vista de fora, aquela sala natural era espaçosa
e oferecia um certo conforto. O chão, ao contrário
de rocha viva, encontrava-se coberto de areia fina e o tecto
não era muito alto, fazendo ainda uma das paredes, um
pequeno cotovelo, que o abrigaria do ar da entrada.
Dispondo os seus poucos haveres no chão, Amal estendeu
a pele de uma cara, sentando-se.
Pelo caminho ao percorrer o vale, viera juntando os poucos
galhos secos que encontrara antes da subida da montanha; com
eles faria uma pequena fogueira onde prepararia uma espécie
de chá, feito de ervas secas, com que esperava aquecer
o corpo inteiriçado.
Após oferecer uma oração de graças
ao Alá, que lhe havia posto aquela gruta no seu caminho,
e quando ia ferir lume para começar o fogo, notou que
não estava sozinho.
Não podia precisar como aquele homem aparecera ali.
O chão de areias não denunciara os seus passos.
Para vir do exterior, teria de obscurecer a luz da entrada e
isso, mais do que qualquer outra coisa, lhe chamaria a atenção.
Restava a hipótese do estranho já ali estar. Para
o jovem, essa era a mais difícil das conjecturas; poderia
jurar sobre o Corão, que a gruta se encontrava deserta
quando entrara.
Como a tentar esclarecer dúvidas, a misteriosa criatura
foi a primeira a falar:
- Sé bem vindo aos meus modestos domínios, jovem
estranho; não será da minha parte um acto de bom
hospedeiro deixar-te à entrada, podendo oferecer-te melhor
abrigo e conforto no interior.
Amal puzera-se de pé, olhando para o homem num estado
entre o respeito e o temor. Este era quase um palmo mais alto
do que ele, forte e com um aspecto majestoso. Embrulhava-se
numa túnica bordada com estranhos símbolos e apoiava-se
numa longa vara terminada por um crescente que parecia talhado
em prata.
Seria difícil precisar-lhe a idade. Tal como a montanha
de que parecia fazer parte, a sua face dir-se-ia também
talhada em granito. O olhar, que tinha um extraordinário
poder magnético, era porém bondoso e acompanhava-o
um sorriso que dissipara as últimas dúvidas de
Amal.
- Só tenho a aceitar e agradecer a tua bondade, senhor,
respondendo o caminhante, que julgava viver uma história
das "Mil e uma Noites".
Com um ligeiro aceno, o homem dirigiu-se para a parede do fundo
da gruta, convidando o jovem a segui-lo. Premindo a rocha com
a mão aberta o estranho anfitrião pôs a
descoberto uma passagem estreita que se comunicava com outra
sala onde brilhava uma luz.
Depois de juntar a sua pele e o saco de viagem, Amal dirigiu-se
para o seu hospedeiro.
- Se o desejardes poderei ir pela lenha.
- Não é necessário; aqui não precisamos
dela - foi a resposta breve do homem.
Uma vez do outro lado da abertura, o jovem achou-se num recinto
coberto de peles de vários animais, onde um cheiro forte
a ervas aromáticas e especiarias lhe feriu o nariz. A
temperatura agradavelmente lânguida, parecia convidar
ao descanso.
A par de grossos livros e manuscritos, podia ver-se toda a
sorte de utensílios de alquimia e medicina; para Amal,
era-lhe impossível distinguir ou classificar todos os
aqueles objectos, que via pela primeira vez. Sacos e odres pelas
paredes, coxins e mantas pelo chão, davam à caverna
a aparência de um bazar de feira. Uma lâmpada de
azeite sobre uma laje, onde uns restos de madeira carbonizada
haviam sido utilizados como fogueira, completavam aquele cenário
misterioso,
Inteligente e com um raciocínio especulativo, o jovem
chegara à conclusão de estar na presença
de um ente sobrenatural; de outro modo como explicar todo o
aparato daquela gruta, perdida a meio da montanha, onde não
abundavam viajantes. Cavernas naturais não se encontram
dotadas de portas de pedra a dividir compartimentos.
De momento tinha de esperar; seria descortez começar,
como uma criança, a fazer perguntas indiscretas.
Sem perder tempo, o hospedeiro começou os preparativos
para a ceia. De um saco tirou alguns toros de madeira, que dispôs
no local próprio e com mão de mestre, em breve
tinha um lume vivo, onde começou a assar um pedaço
de cabrito. Queijo e figos completaram o repasto. A poção
que o hospedeiro serviu para ambos tinha um travo ligeiramente
amargo de amêndoas, mas depois de alguns momentos, espalhava
uma sensação de conforto e entorpecimento por
todo o corpo, que convidava ao repouso.
- Conforme é uso entre viajantes, agora que a ceia acabou,
vais contar-me a tua história, meu jovem amigo; talvez
ao concluíres possa dar-te qualquer conselho útil
para a viagem que irás prosseguir pela manhã.
Refeito das necessidades físicas e sentindo-se confidente
na presença do seu anfitrião, Amal depois de ajeitar-se
nos coxins, que lhe haviam sido designados, começou a
sua narrativa.
A presença vívida dos acontecimentos que descrevia,
tomava-lhe por vezes as suas emoções. O outro
seguia a história calado, parecendo dormir. Notando-o,
Amal delicadamente sugeriu continuar no dia seguinte.
- Por Alá, meu filho, ninguém poderia ouvir sem
interesse o que tens vindo a contar. Tenho os olhos fechados
para melhor ajuizar a tua maravilhosa história, - prossegue.
Por mais de uma hora o jovem, que era bom narrador, prosseguiu.
Com a morte da velha que o criara - a sua querida avó
- e a despedida da sua amada Celina, finalizou a narrativa,
enxugando uma lágrima teimosa que lhe bailava nos olhos.
Pondo-se de pé, o austero ermitão, tomou Amal
em seus braços.
- Agradece a Alá, que te conduziu até este lugar
e a mim - um modesto servidor do Todo Poderoso - que guia neste
mundo os passos de todo o ser vivente!
Atónito perante o incompreensível monólogo
do velho, Amal esperou que ele o elucidasse. Ao contrário
de o fazer, este começou a interrogá-lo.
- Pela tua narrativa, soube que andavas à procura de
um "Talismã". Que pretendes dele, meu filho?
- Sabedoria, Senhor! A única riqueza que não enche
cofres e que se pode levar para qualquer lado, sem perigo de
ser roubada pelos ladrões. Com ela posso ajudar os meus
semelhantes, sem lhe perturbar os espíritos.
- Extraordinária resposta, meu jovem amigo; foste predestinado
para seres um repositório de bondade e sabedoria. - A
tua avó quando te falou das montanhas onde poderias encontrar
o "Talismã", preparava-te para este momento.
Amal sentiu o sangue a gelar-lhe nas veias. - O homem parecia
conhecer o seu espírito. Estaria em presença do
guardião do famoso objecto?!... Tudo parecia indicá-lo.
O velho continuou: - Sabedoria pode adquirir-se com a idade
e com os livros Presumo no entanto que nunca aprendeste a ler.
Ao mesmo tempo que assim falara a estranha criatura fora por
um tolo de manuscritos, guardado numa reentrância da parede
de rocha.
- É verdade senhor, de onde vim não haviam mestres
para nos ensinar. Os poucos conhecimentos que tenho, aprendi-os
de um outro viajante.
- Vamos tentar circundar esse obstáculo, disse o homem
abrindo os pergaminhos e estendo-os no chão, deixando
à amostra os caracteres que formavam as inumeráveis
combinações de palavras, que transmitiam o conhecimento
humano através das gerações.
Amal não compreendia o propósito de tudo aquilo;
aqueles símbolos para ele, excepto por uns quantos, não
tinham muito significado. - Ou teriam mesmo?...Qualquer coisa
extraordinária estava a passar-se. O velho abrira uma
caixa de laca de onde extraíra cintilações.
Nele podiam notar-se umas inscrições doiradas.
Ao fazê-lo, pairava-lhe na face um sorriso bondoso.
Sem perceber como a transformação se operara,
Amal podia entender agora o significado da maior parte do que
estava escrito no pergaminho. Era como se estivesse a ver estampada
na sua memória, uma versão clara do testo manuscrito!
Levantando os olhos, o rapaz deu pela presença do objecto
mágico, na mão do seu hospedeiro.
- Foi o "Talismã" que me abriu os olhos, senhor?
- Foi Alá, meu filho, através da tua bondade.
- Posso ver outros manuscritos? - pediu o rapaz.
- Quantos queiras, todos eles terão agora significado
para ti.
Amal abriu um de medicina que lhe despertara a atenção.
Folheando algumas páginas, o jovem deu um grito de espanto.
À reacção do seu hóspede, o velho
aproximou-se curioso.
- Que se passa?
- Acabo de ver o que me parece Celina neste livro!
- A tua imaginação está obcecada por essa
rapariga; a que aí está é uma jovem a sofrer
da mesma deformação da tua.
- Penso ver aqui uma explicação de como proceder
a um tratamento para curar ou corrigir essa deformidade... -
Achas que pode haver ainda alguma esperança para a minha
pobre Celina?
- Talvez; Alá é Grande e uma vontade firme como
a tua pode mover montanhas, respondeu o mago que prosseguiu:
- Terás porém de partir quanto antes para a tua
terra; a idade dela está a chegar ao ponto crítico;
dentro em pouco, o seu corpo não crescerá mais
e para esse tratamento, que requer muitas horas de massagens
para distenderem os músculos e tendões atrofiados,
é condição essencial, que o corpo esteja
ainda em crescimento.
- Partirei de volta pela manhã, disse Amal com uma expressão
exultante.
- E o talismã, não o queres?
- Usa-o com alguém que esteja em maior dificuldade do
que eu. A mim ajudou-me a encontrar a minha felicidade! Gostaria
no entanto de pedir-te uma coisa preciosa, que prometo restituir-te
assim que acabar o meu trabalho com a rapariga que amo.
- O livro?
- Sim!
- Leva-o e dispõe indiscriminadamente da sabedoria nele
contida. Há muita gente sofredora por toda a parte e
poucos homens capazes de se compadecerem do seu semelhante.
-
O dia começava a despontar; pela entrada da gruta podiam
ver-se os tons róseos, que o Sol, do lado oposto da montanha,
na sua ascensão diurna derramava sobre a terra.
Amal encontrava-se no recesso que havia escolhido na véspera
para se proteger do frio, sobre a pele que estendera na areai.
A seu lado, a lenha que não chegara a acender, encontrava-se
como a havia deixado, empilhada a seu lado.
Sentia-se enregelado e miserável ao contestar o ambiente
à sua volta.
Fora tudo um sonho, pensou desolado, bom demais para ser verdadeiro!
Não pude evitar um sorriso, com que pretendia troçar
de si mesmo e das suas fantasias.
...Por certo deveria estar extremamente cansado para se deixar
adormecer sem fazer uma fogueira...
Recordava-se agora de haver parado por momentos a meio da montanha,
antes de descobrir a caverna e da luta que tivera de travar
consigo, para se não deixar vencer pelo sono.
O "Talismã" estava a tomar posse dos seus
sentidos e da realidade, pensou o jovem. Não iria prosseguir
naquela loucura; Assad há cinco anos que desaparecera
e ninguém sabia o que fora feito dele, quem sabe se engolido
por algum por algum precipício.
Não sentia vontade de consumir os seus melhores anos
na procura de um objecto, que não tinha a certeza de
ser real, ou que mesmo existindo, onde o poderia encontrar.
O Mundo era tão grande e as montanhas seguiam-se umas
às outras!...
Celina e o seu pequeno rebanho eram duas realidades que o esperavam
e sabia onde as podia encontrar.
Sua avó sonhara com aquela viagem pelas montanhas e
ele havia sonhado um sonho grande, porém irrealizável!...
Dois pobres sonhadores!
Era tempo de regressar ao seu pequeno povoado distante, perdido
na orla do deserto, de onde partiam as caravanas!
Pondo-se de pé, o jovem fez alguns movimentos a procurar
desentorpecer as pernas.
Numa tentativa vã, foi passar as mãos pela parede
do fundo da gruta. As rochas eram lisas e não mostravam
qualquer fenda que pudesse justificar uma passagem.
Satisfeita aquela última curiosidade, Amal preparou
a fogueira para fazer um púcaro de chá.
Após comer um pedaço de pão com queijo,
qual dos dois mais duros, o viajante aqueceu-se com uma bebida
que acabara de ferver.
Sentindo-se confortado, fez uma ligeira oração
de graças a Alá, afim de começar a sua
viagem de regresso.
Foi então que notou uma pequena caixa de laca preta
entre as roupas. Emocionado, o jovem reconheceu o objecto com
que julgara ter sonhado. No seu interior encontrava-se o talismã.
Do livro que pedira em troca deste, nem sombra. Para certificar-se
das suas dúvidas, ao olhar para o pequeno amuleto com
inscrições, viu de novo com clareza como poderia
curar a sua querida doente.
Jubiloso com essa certeza, fechou o saco e pondo-o às
costas, deixou a gruta.
Em baixo no vale, alguns pássaros elevavam-se na brisa
fresca da manhã.
Um velho alto, embrulhado numa estranha capa e apoiando-se
a um bordão terminado por um crescente, tendo na face
um sorriso enigmático, permaneceu à entrada da
gruta, até Amal se perder na distância.
Jan. de 1989
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