Prosa


O Talismã

Conto

Por Fernando Feliciano de Melo

(Da Antologia "Folhas Levadas p'lo Vento")

Na orla do deserto, onde uma suave colina se estendia até ligar-se a outras que iam perder-se de vista nas montanhas distantes, existia um pequeno povoado de poucos recursos.

A sua maior importância consistia de ser aquele um dos últimos pontos onde um ser humano ou outra qualquer criatura vivente, poderia encontrar um tecto para se abrigar dos raios intensos do Sol, ou um poço onde matar a sede, antes de penetrar no infindável oceano de areia, que se estendia a perder de vista.

Muitas caravanas ao longo dos anos, costumavam agrupar-se no local. Vindos de outras terras, pequenos bandos - que sós não ousariam tentar a travessia - esperavam ali, até um dos guias ter um número conveniente de mercadores, para se porem em marcha.

Pelo espaço de alguns dias, havia uma certa actividade, ligada aos últimos preparativos da partida; era um homem que se ajustava por um determinado preço, a seguir como ajudante de mercador ou a aquisição de fardos de figos, tâmaras secas, ou ainda de um ou dois odres de água potável para a jornada...Medidas sempre difíceis de ajuizar e que apenas os olhos experientes daquelas águias do deserto, condutores de homens e animais, para quem as cargas tinham de ser balançadas com as resistências dos camelos, podiam aconselhar ou rejeitar.

Uma vez a caravana em marcha, tudo no lugar voltava à costumeira monotonia, que só seria quebrada pelo alvoroço de outra caravana.

Para o rapazio do lugar, as chegadas, como é lógico, eram mais importantes que as partidas.

Tal como os marinheiros ao desembarcarem num porto, após visitarem terras longínquas, também os mercadores e peões tinham sempre histórias maravilhosas para contar, trazidas de lugares exóticos em países distantes, as quais deixavam boquiabertos os jovens ouvintes, para quem as notícias do mundo se limitavam aos contos e descrições dos viajantes.

No momento em que decorre esta narrativa, uma densa nuvem de poeira elevava-se no ar da tarde, seguida de uma tumultuosa algaraviasa, indícios percursores da chegada de uma caravana. O camelo da dianteira, de uma longa fila, atingia já as primeiras habitações do lugar.

Cobertos de pó - que lhes dava às caras contornos grotescos - os mercadores em breve eram rodeados pelo rapazio e pelos cães, que formavam uma espécie de cortejo de boas vindas.

Em breve seria noite, porém nenhum dos rapazes à volta estava pensando em recolher cedo a casa; havia sempre muito para ver e ouvir até a fadiga tomar conta dos viajantes. Como sempre, estes seriam os primeiros a sucumbir ao cansaço, exaustos por um longo dia de marcha debaixo do implacável Sol do deserto.

Na ampla estalagem do povoado, rapidamente eram iniciados os preparativos para acomodar tão grande número de homens e animais nas melhores condições.

No pátio ardiam já as primeiras fogueiras. Em contraste com o intenso calor do dia - as noites nas regiões do deserto eram frias.

Os servidores estendiam pelo chão esteiras de junco, onde iriam ser dispostas as comidas e bebidas para os viajantes, aguardando apenas o final das abluções inadiáveis dos recém-chegados, para começarem a servir a repasto.

***

Junto a um dos arcos exteriores do pátio da estalagem, dois jovens do lugar, atentos, encontravam-se imiscuídos num grupo de mercadores a ouvir a história que um deles, com certa mestria estava a contar - uma narrativa fascinante, entremeada de magia.

Eram esses dois rapazes amigos de infância, mais ou menos da mesma idade, porém com estaturas e feições bastante diferentes. O mais alto - Assad - tinha todos os traços de um filho do deserto, pele escura, cabelos pretos e lustrosos e uns olhos extremamente vivos e penetrantes. O nariz ligeiramente curvado, com narinas rasgadas que se abriam sobre uns lábios grossos, emoldurava uma boca com dentes brancos e incisivos, que tinham algo de animal de presa. Completava o último retoque na descrição das feições deste jovem, uma barba irregular.

Quanto ao físico, era possuidor de um corpo musculoso e bem proporcionado. No que tocava ao carácter, Assad possuía uma vontade dominadora, que por vezes lhe acarretava dissabores e lutas com os companheiros do lugar, que aos poucos haviam começado a desviar-se da sua presença.

O único que ainda se mantinha fiel à amizade de infância que os unira a todos, era Amal. Não fora pela sua companhia, o outro seria um solitário, escorraçado pelos restantes rapazes da sua idade.

Ao contrário do amigo, Amal tinha um temperamento dócil e sonhador. Muitas noites, quando já todos dormiam ao redor, enrolado na sua manta de lá, deixava-se ficar por horas a contemplar as constelações no céu do deserto, que devido à rarefacção própria do lugar, têm um brilho e nitidez, difíceis de obter ou igualar em outros lugares da Terra.

Aqueles mundos estranhos de beleza incomparável atraíam-lhe a imaginação, levando-o em viagens pelas estrelas, que fariam a inveja de um moderno astronauta.

Amal era baixo e de feições regulares sem muito para salientar, excepto pela serenidade dos olhos. Estes, que o vulgo diz serem o espelho da alma, eram nele, o mais belo atributo que possuía. Enquanto Assad, podia fazer gelar o sangue de alguém, com um dos seus olhares penetrantes, Amal estendia através dos seus, uma ponte segura, entre si e quem estivesse a falar com ele ou necessitasse da sua ajuda. Todos gostavam dele no pequeno povoado.

Vivia com uma velha avó, que o criara e amava com devoção. Para ela, o jovem era um anjo, que Alá se dignara conceder-lhe. Sem ele a sua existência teria acabado há muitos anos. O rapaz por seu turno, tinha a avó acima da sua própria vida.

***

As chamas crepitantes da fogueira arrancavam cintilações estranhas aos olhos brilhantes de Assad, embebido na narrativa; os de Amal estavam perdidos num ponto vago, que podia estar junto do mercador a contar a história, como a centenas de quilómetros de distância.

A fabulosa narrativa, por longo tempo a prender a atenção do grupo, que aos poucos fora aumentando, tal o interesse, constara de um "talismã"e das propriedades mágicas, que o narrador dizia serem-lhe atribuídas.

A partir do momento que a história tomara configuração. Um desejo forte se estabeleceu no coração dos dois jovens de correr em busca do valioso objecto. Em ambos porém, os imperativos ligados a essa viagem pelo desconhecido, eram diferentes e bem assim os desejos do que esperavam obter do "Talismã, que a acreditar no narrador, podia dispensar a quem o possuísse poderio e riqueza ou se tal fosse outro o desejo, sabedoria e paz.

Assad, como seria de esperar do seu carácter, queria poderio e riqueza, enquanto Amal, apenas sabedoria e paz!

Ao primeiro, nada o demoveria de abalar imediatamente; o segundo teria de aguardar até que a avó não precisasse mais dele, o que equivalia a uma espera indefinida.

No enorme pátio da estalagem havia começado já a debandada; a noite ia avançada e a fadiga da viagem tornava o descanso imperioso para os componentes da caravana.

A sós no caminho, enquanto rumavam para casa, os dois amigos iam trocando impressões acerca dos eventos daquela tarde extraordinária.

- Queres vir comigo à procura do "Talismã"? Propôs Assad.
- Quando? Quiz saber Amal, que interiormente conhecia a resposta do outro.
- Amanhã; só tenho de preparar umas poucas coisas para a jornada; estarei pronto antes do nascer do Sol. Seguiremos pela fresca... Há tantas montanhas por esse mundo fora, dizem os homens das caravanas!... E o "Talismã" encontra-se numa delas.
- Impossível, foi a resposta firme do companheiro - nunca poderia abalar deixando a minha velhinha só.
- Não tens uma vontade forte, Amal!... - A mim não haverá nada que me demova.
- Nem mesmo a tua irmã aleijada, que sempre tem dependido bastante de ti? - Tua mãe para tomar conta dela e ganhar o sustento de ambas, irá ter uma vida bastante difícil.
- Alá é grande e conhece as faltas dos seus filhos. Ele poderá ajudar minha mãe e minha irmã e ainda a tua avó, se te decidires a vir comigo; anda toma uma resolução!
- A minha resolução está tomada! - Tal como tu, irei por esse ""Talismã" - não sei porém o dia da minha partida! Não penses que o teu desejo de o possuir, é maior do que o meu; se me decidi a ficar, é porque o tempo de poder dispor de mim, ainda não chegou!

Interiormente Assad começava a sentir uma irritação surda contra Amal, não tanto pelo facto de o amigo o deixar seguir sozinho, mas pelas aguilhoadas que este lhe desferrara na consciência, acerca da irmã e da mãe.

Antes de se separarem e como a tentar apaziguar as frustrações que levantar no espírito torvo do amigo, Amal abraçou o companheiro de tantos anos, dizendo-lhe:

- Sempre que possa, ajudarei os teus; Alá tem de servir-se de algum braço à volta, para o fazer - penso que poderá usar o meu!

Com voz embargada pela comoção, após ouvir tão estranhas palavras, Assad correndo, talvez para esconder a sua vergonha do amigo, disse:

- Ver-nos-emos um dia, prometo-te; até lá, boa sorte!

Aquelas haviam sido as últimas palavras de um jovem de corpo forte, que era porém fraco de espírito, a um outro, que sendo de físico franzino, era forte de coração.

Quando pela tarde do dia seguinte, Amal após ter ido pastorear algumas cabras que possuía, regressava a casa com o diminuto rebanho, estavam a esperá-lo à porta, além da velha avó, a mãe e a irmã de Assad, em cujas faces se podia ver dúvida e ansiedade.

Uma estranha ideia ocorreu-lhe rápida; o seu companheiro fora-se sem nada dizer aos seus. Como seria possível ao amigo cometer um acto tão vil, era uma coisa que a sua alma pura não tinha possibilidade de compreender. Intimamente o jovem esperava estar enganado nas suas conjecturas, porém a realidade era mesmo aquela!
- Diz-me Amal, sabes para onde foi o meu filho?
- Em busca de um "Talismã", senhora. Tentei demovê-lo dessa ideia temerosa e irresponsável, mas tu sabes melhor do que eu, que ninguém tem poder de subjugar-lhe a vontade.
- Que irá ser de nós, sem o seu braço forte à volta? Gemeu a pobre mulher, apertando contra si a filha aleijada, que se debulhava em lágrimas.

A rapariga amava o irmão, sentindo-se atraiçoada pelo seu procedimento egoísta e desumana.

- Tereis o meu braço e o da minha avó. Não será a mesma coisa, mas poderão ajudar-te na situação em que te encontras. A tua filha ficará com ela durante o dia, afim de poderes ganhar o sustento de ambas e à noite virá por ela.

Levarei a pastar as tuas cabras junto com as minhas e qualquer outro serviço que precise a mão de um homem, podes contar comigo.

- Porque será, balbuciou a velha avó, a quem duas pesadas lágrimas de gratidão a Deus, que lhe havia concedido o tesouro que tinha por neto, não fez as almas dos homens, todas iguais?
- Gostaria de poder tratar-te por filho, mas o meu cometeu uma acção tão indigna contra mim, que esse tratamento é quase como que uma ofensa, para uma alma boa e digna como a tua!

Amal com um nó na garganta, depois de ouvir as angustiantes palavras da pobre mulher, estendeu-lhe os braços, tomando-a neles. Por um momento aqueles dois corações bateram em uníssono; a comoção não o deixava falar - quando por fim o conseguiu, o jovem, após depositar um beijo na face da sua nova mãe, com um sorriso terno, disse-lhe: - Podes sem ofensa tratar-me como se fosse o teu filho, eu tratar-te-ei, como a mãe que nunca conheci.

Depois desse primeiro dia, uma vida diferente começou para aquelas quatro almas, que iria sujeitar-se a algumas adaptações. Por seu intermédio, o braço de Alá ia operando os milagres, conforme mencionara a Assad, na noite daquela despedida funesta.

***

Para Amal os anos ia decorrendo vagarosamente, com a avó a ficar mais velhinha e o desejo de encontrar o "Talismã", ao contrário de desvanecer, a tornar-se cada dia mais forte.

Era agora um homem feito, admirado e respeitado por toda a gente da terra.

Uma tarde, com a chegada de uma caravana, quando Amal se encontrava à sombra, no pátio da sua casa, com as três mulheres que tinha a seu cargo, uma notícia chegou tumultuosa:
- Assad voltou!... Assad Voltou!...

Num ápice, como se fossem molas, todos se puzeram de pé. Um grupo rodeando Assad, acabava de entrar no recinto. Um grito escapou-se do peito da mãe da jovem deformada.

A rapariga, sem perceber bem o que estava a passar-se, fitava com os olhos desmesuradamente abertos o recém-chegado, que não era o irmão por ela esperado e sim o pai, que mal se lembrava de conhecer, desaparecido há muitos anos, quando se alistara numa caravana ao serviço de um mercador.

***

Cinco anos estavam a completar-se, desde a partida do amigo, sem que alguém trouxesse a mais pequena notícia acerca dele. Era como se a terra o houvesse tragado.

A família do seu colega de infância, para quem fora um dos principais esteios naqueles longos e tristes anos, com a chegada do velho Assad ia levando agora uma vida mais desafogada. O homem amealhara algum dinheiro, que empregara na compra de um rebanho.

Uma manhã, quando Amal se prepara para sair com as suas cabras, ao despedir-se da avó, esta tomou-lhe a mão e com um ar grave disse: - Meu filho, eu tive um estranho sonho esta noite. Vamos ambos partir de viagem, Alá mostrou-me os caminhos. Eu seguirei pela noite, através da planície, enquanto tu, à luz clara do Sol, irás pelas montanhas, em busca do teu "Talismã"!

- E quem te ajudará na caminhada, querida avó? Já quase te não aguentas de pé sozinha, tentou gracejar Amal, que sentia um nó na garganta!
- Não te rias nem temas por mim, meu anjo!... - Desta vez vou poder caminhar sem o teu auxílio - acredita-me!

Aquelas palavras estranhas, o jovem sentiu a pele arrepiar-se. Elas iam para além da trivialidade de um sonho!

- Como soubeste que teria de ir pelas montanhas em busca de um "Talismã"? Se nunca te falei acerca dessa ocorrência.
- Acaso não foi essa a história que ouviste na estalagem?

Amal não sabia que pensar; os olhos bondosos da avó, tinham uma expressão sorridente e ao mesmo tempo séria, que não deixavam persistir dúvidas acerca do conhecimento daquela interrogativa, a todos os títulos inexplicável.

Ela não havia estado lá e ele nunca lhe falara da ventura, receoso de que o seu conhecimento pudesse fazê-la sentir-se um estorvo. - De onde lhe viera então o conhecimento das montanhas? O mercador da narrativa fora claro: - "Nas montanhas de uma terra distante, existia um Talismã, à guarda de um mágico, que proporcionaria poder e riqueza ou sabedoria e paz, a quem o possuísse."

Como teria aquele corpo alquebrado pelos anos e sem contactos com ninguém, chegado ao conhecimento dos seus mais íntimos segredos?...

- Talvez, conforme lhe acabara de revelar, Alá a tivesse visitado nos seus sonhos, para Ele nada era impossível!

*

Tomado de profunda comoção, o jovem apertou o corpo mirrado da avó de encontro ao peito, sentindo a alma encher-se-lhe de tristeza.

- Querida, disse Amal - alguma coisa que não sei explicar, está a acontecer entre nós... Alá não costuma visitar os mortais sem um propósito.
- Quero que saibas porém, que não trocaria um dia da tua vida, por nada deste mundo, nem mesmo por esse talismã, que pode não passar de uma fantasia.
- Sempre o soube, meu anjo; quanto a essa fantasia - só está à espera que a tua tenacidade a torne uma realidade, - murmurou a velha olhando para a porta, onde a figura de Celina, apoiada a uma vara, acabava de aparecer.
- Toma conta dela, Celina, não a acho muito normal esta manhã. Talvez tivesse tido um pouco de febre durante a noite; prepara-lhe um caldo.
- Vai descansado, cuidarei dela o melhor que puder.

Com as últimas recomendações, Amal depois de beijar as duas mulheres, dirigiu-se para a porta. Quando já se encontrava no limiar, a avó em voz fraca, ofereceu-lhe um derradeiro e precioso conselho: - Meu filho, as montanhas dessa "terra distante", onde o "Talismã"" se encontra, são uma alegoria à felicidade e ao homem - tanto pode ela estar ao seu alcance, ou nunca ser encontrada por ele!... - Precisas ser tenaz no teu esforço.

Com um arrepio a percorrer-lhe a espinha, o rapaz que tentava encontrar uma explicação para o inexplicável, deixou a casa e aqueles dois seres que amava enternecidamente, sentindo um peso no coração.

Ao regressar, Celina chorava, segurando nas suas, a mão da sua velha amiga, fria e sem vida. As lágrimas de ambos, rolaram sobre o pergaminho daquelas peles velhas e enrugadas, misturando-se num derradeiro tributo de amor e saudade.

Conforme previra, a sua bondosa ave iria viajar pela noite, através das planícies eternas, onde não precisaria a sua ajuda para se arrimar. Lá fora as primeiras estrelas começavam a brilhar no firmamento.

Era finalmente um homem livre, para realizar os seus sonhos, por tantos anos adormecidos - porém o apreço, Santo Deus! Nunca o imaginaria tão pesado!...

***

Antes de partir para a sua aventura, Amal propuzera ao velho Assad, vender-lhe as suas poucas cabras, ficando surpreendido e sensibilizado com a resposta deste:

- Alá nunca me receberia se o fizesse. - Serão minhas, para cuidar delas enquanto durar a tua jornada, quando voltares, tê-las-ás de novo; Celina irá uma vez por outra a tua casa, para que tudo esteja em ordem a qualquer tempo que regresses. - Não esperamos que a tua ausência seja tão prolongada, como a desse filho de coração empedernido, que abandonou a família por um capricho. - Preferia não voltar nunca a vê-lo de regresso!
- Não blasfemes Assad! - Alá poderia receber-te, comprasses-me as cabras ou não, porém nunca o faria, se não perdoasses ao teu filho. - Quem sabe, o que lhe terá acontecido por esse mundo fora? - Pode até ter expiado já o seu crime, mais de uma vez, o que não lhe evitará a terrível dúvida, de um dia poder obter o vosso perdão no regresso.

Assad não pode mais do que prometer reconciliar-se com o filho, caso ele voltasse. Não queria deixar partir aquela jóia de bondade, na incerteza do que seria o regresso do primogénito, a um lar que lhe cerraria as suas portas.

- Perdeste a tua avó, meu filho, disse a mulher de Assad, beijando-o, mas terás sempre aqui uma família à tua espera. Após retribuir o beijo da sua mãe adoptiva, o jovem abraçou o velho Assad.

Feliz por deixar as coisas neste pé, Amal foi despedir-se de Celina, que se encontrava voltada para a parede, sem coragem de o fitar, procurando esconder o seu pranto silencioso, que lhe queimava os olhos e amarfanhava o peito, onde trazia escondido um amor profundo por ele, o qual a todo o custo procurava guardar secreto - envergonhada da sua perna atrofiada.

Tomando-lhe o rosto delicado nas mãos e levantando-o carinhosamente, para que os olhos de ambos se fitassem, este sussurrou-lhe aos ouvidos, as mais belas palavras que ela já ouvira em sua vida: - Celina, Por ti meu doce amor, voltarei cedo. Não me esquecerei de ti, minha rolazinha ferida!

***

Sentado num penhasco, ao abrigo de uma ravina, Amal por um momento fechou os olhos. Achava-se extremamente cansado e a tentação de se deixar adormecer, começava-lhe a assediá-lo; tinha de lutar para se manter desperto. A meio de uma montanha e com a tarde a avançar, precisava descobrir qualquer gruta ou na falta desta um recesso, onde pudesse passar a noite, protegido do frio cortante das alturas, ou descer, enquanto ainda podia enxergar onde ponha os pés.

Por vezes chegava a duvidar se teria valido a pena todo o sofrimento e canseira de tão longa jornada. O pensamento em sua avó e Celina, era o único sustentáculo, que o encorajava a prosseguir; talvez fosse ainda um pouco cedo para aceitar a derrota.

A mensagem sobrenatural sonhada pela sua velhinha e o seu último conselho, pesavam-lhe na decisão de prosseguir.

Ia para um ano que deixara o seu povoado; Celina iria em breve completar dezoito anos. Gostaria de estar presente por essa altura; amava aquela bonita rapariga, que corajosamente lutava para ser normal, apezar de ter uma perna atrofiada. Num gesto maquinal o jovem apalpou o saco junto de si, onde guardava uma preciosa lembrança para a sua amada.

Disposto a encontrar um abrigo antes da noite, Amal pôs-se de novo em marcha. Após ter percorrido dois ou três quilómetros e ao contornar uma escarpa, topou aquilo que procurava. Na parede viva da montanha divisara a entrada de uma gruta.

Pequena, vista de fora, aquela sala natural era espaçosa e oferecia um certo conforto. O chão, ao contrário de rocha viva, encontrava-se coberto de areia fina e o tecto não era muito alto, fazendo ainda uma das paredes, um pequeno cotovelo, que o abrigaria do ar da entrada.

Dispondo os seus poucos haveres no chão, Amal estendeu a pele de uma cara, sentando-se.

Pelo caminho ao percorrer o vale, viera juntando os poucos galhos secos que encontrara antes da subida da montanha; com eles faria uma pequena fogueira onde prepararia uma espécie de chá, feito de ervas secas, com que esperava aquecer o corpo inteiriçado.

Após oferecer uma oração de graças ao Alá, que lhe havia posto aquela gruta no seu caminho, e quando ia ferir lume para começar o fogo, notou que não estava sozinho.

Não podia precisar como aquele homem aparecera ali. O chão de areias não denunciara os seus passos. Para vir do exterior, teria de obscurecer a luz da entrada e isso, mais do que qualquer outra coisa, lhe chamaria a atenção. Restava a hipótese do estranho já ali estar. Para o jovem, essa era a mais difícil das conjecturas; poderia jurar sobre o Corão, que a gruta se encontrava deserta quando entrara.

Como a tentar esclarecer dúvidas, a misteriosa criatura foi a primeira a falar:

- Sé bem vindo aos meus modestos domínios, jovem estranho; não será da minha parte um acto de bom hospedeiro deixar-te à entrada, podendo oferecer-te melhor abrigo e conforto no interior.

Amal puzera-se de pé, olhando para o homem num estado entre o respeito e o temor. Este era quase um palmo mais alto do que ele, forte e com um aspecto majestoso. Embrulhava-se numa túnica bordada com estranhos símbolos e apoiava-se numa longa vara terminada por um crescente que parecia talhado em prata.

Seria difícil precisar-lhe a idade. Tal como a montanha de que parecia fazer parte, a sua face dir-se-ia também talhada em granito. O olhar, que tinha um extraordinário poder magnético, era porém bondoso e acompanhava-o um sorriso que dissipara as últimas dúvidas de Amal.

- Só tenho a aceitar e agradecer a tua bondade, senhor, respondendo o caminhante, que julgava viver uma história das "Mil e uma Noites".

Com um ligeiro aceno, o homem dirigiu-se para a parede do fundo da gruta, convidando o jovem a segui-lo. Premindo a rocha com a mão aberta o estranho anfitrião pôs a descoberto uma passagem estreita que se comunicava com outra sala onde brilhava uma luz.

Depois de juntar a sua pele e o saco de viagem, Amal dirigiu-se para o seu hospedeiro.

- Se o desejardes poderei ir pela lenha.
- Não é necessário; aqui não precisamos dela - foi a resposta breve do homem.

Uma vez do outro lado da abertura, o jovem achou-se num recinto coberto de peles de vários animais, onde um cheiro forte a ervas aromáticas e especiarias lhe feriu o nariz. A temperatura agradavelmente lânguida, parecia convidar ao descanso.

A par de grossos livros e manuscritos, podia ver-se toda a sorte de utensílios de alquimia e medicina; para Amal, era-lhe impossível distinguir ou classificar todos os aqueles objectos, que via pela primeira vez. Sacos e odres pelas paredes, coxins e mantas pelo chão, davam à caverna a aparência de um bazar de feira. Uma lâmpada de azeite sobre uma laje, onde uns restos de madeira carbonizada haviam sido utilizados como fogueira, completavam aquele cenário misterioso,

Inteligente e com um raciocínio especulativo, o jovem chegara à conclusão de estar na presença de um ente sobrenatural; de outro modo como explicar todo o aparato daquela gruta, perdida a meio da montanha, onde não abundavam viajantes. Cavernas naturais não se encontram dotadas de portas de pedra a dividir compartimentos.

De momento tinha de esperar; seria descortez começar, como uma criança, a fazer perguntas indiscretas.

Sem perder tempo, o hospedeiro começou os preparativos para a ceia. De um saco tirou alguns toros de madeira, que dispôs no local próprio e com mão de mestre, em breve tinha um lume vivo, onde começou a assar um pedaço de cabrito. Queijo e figos completaram o repasto. A poção que o hospedeiro serviu para ambos tinha um travo ligeiramente amargo de amêndoas, mas depois de alguns momentos, espalhava uma sensação de conforto e entorpecimento por todo o corpo, que convidava ao repouso.

- Conforme é uso entre viajantes, agora que a ceia acabou, vais contar-me a tua história, meu jovem amigo; talvez ao concluíres possa dar-te qualquer conselho útil para a viagem que irás prosseguir pela manhã.

Refeito das necessidades físicas e sentindo-se confidente na presença do seu anfitrião, Amal depois de ajeitar-se nos coxins, que lhe haviam sido designados, começou a sua narrativa.

A presença vívida dos acontecimentos que descrevia, tomava-lhe por vezes as suas emoções. O outro seguia a história calado, parecendo dormir. Notando-o, Amal delicadamente sugeriu continuar no dia seguinte.

- Por Alá, meu filho, ninguém poderia ouvir sem interesse o que tens vindo a contar. Tenho os olhos fechados para melhor ajuizar a tua maravilhosa história, - prossegue.

Por mais de uma hora o jovem, que era bom narrador, prosseguiu. Com a morte da velha que o criara - a sua querida avó - e a despedida da sua amada Celina, finalizou a narrativa, enxugando uma lágrima teimosa que lhe bailava nos olhos.

Pondo-se de pé, o austero ermitão, tomou Amal em seus braços.

- Agradece a Alá, que te conduziu até este lugar e a mim - um modesto servidor do Todo Poderoso - que guia neste mundo os passos de todo o ser vivente!

Atónito perante o incompreensível monólogo do velho, Amal esperou que ele o elucidasse. Ao contrário de o fazer, este começou a interrogá-lo.

- Pela tua narrativa, soube que andavas à procura de um "Talismã". Que pretendes dele, meu filho?
- Sabedoria, Senhor! A única riqueza que não enche cofres e que se pode levar para qualquer lado, sem perigo de ser roubada pelos ladrões. Com ela posso ajudar os meus semelhantes, sem lhe perturbar os espíritos.
- Extraordinária resposta, meu jovem amigo; foste predestinado para seres um repositório de bondade e sabedoria. - A tua avó quando te falou das montanhas onde poderias encontrar o "Talismã", preparava-te para este momento.

Amal sentiu o sangue a gelar-lhe nas veias. - O homem parecia conhecer o seu espírito. Estaria em presença do guardião do famoso objecto?!... Tudo parecia indicá-lo.

O velho continuou: - Sabedoria pode adquirir-se com a idade e com os livros Presumo no entanto que nunca aprendeste a ler. Ao mesmo tempo que assim falara a estranha criatura fora por um tolo de manuscritos, guardado numa reentrância da parede de rocha.

- É verdade senhor, de onde vim não haviam mestres para nos ensinar. Os poucos conhecimentos que tenho, aprendi-os de um outro viajante.
- Vamos tentar circundar esse obstáculo, disse o homem abrindo os pergaminhos e estendo-os no chão, deixando à amostra os caracteres que formavam as inumeráveis combinações de palavras, que transmitiam o conhecimento humano através das gerações.

Amal não compreendia o propósito de tudo aquilo; aqueles símbolos para ele, excepto por uns quantos, não tinham muito significado. - Ou teriam mesmo?...Qualquer coisa extraordinária estava a passar-se. O velho abrira uma caixa de laca de onde extraíra cintilações. Nele podiam notar-se umas inscrições doiradas. Ao fazê-lo, pairava-lhe na face um sorriso bondoso.

Sem perceber como a transformação se operara, Amal podia entender agora o significado da maior parte do que estava escrito no pergaminho. Era como se estivesse a ver estampada na sua memória, uma versão clara do testo manuscrito!

Levantando os olhos, o rapaz deu pela presença do objecto mágico, na mão do seu hospedeiro.

- Foi o "Talismã" que me abriu os olhos, senhor?
- Foi Alá, meu filho, através da tua bondade.
- Posso ver outros manuscritos? - pediu o rapaz.
- Quantos queiras, todos eles terão agora significado para ti.

Amal abriu um de medicina que lhe despertara a atenção. Folheando algumas páginas, o jovem deu um grito de espanto. À reacção do seu hóspede, o velho aproximou-se curioso.

- Que se passa?
- Acabo de ver o que me parece Celina neste livro!
- A tua imaginação está obcecada por essa rapariga; a que aí está é uma jovem a sofrer da mesma deformação da tua.
- Penso ver aqui uma explicação de como proceder a um tratamento para curar ou corrigir essa deformidade... - Achas que pode haver ainda alguma esperança para a minha pobre Celina?
- Talvez; Alá é Grande e uma vontade firme como a tua pode mover montanhas, respondeu o mago que prosseguiu: - Terás porém de partir quanto antes para a tua terra; a idade dela está a chegar ao ponto crítico; dentro em pouco, o seu corpo não crescerá mais e para esse tratamento, que requer muitas horas de massagens para distenderem os músculos e tendões atrofiados, é condição essencial, que o corpo esteja ainda em crescimento.
- Partirei de volta pela manhã, disse Amal com uma expressão exultante.
- E o talismã, não o queres?
- Usa-o com alguém que esteja em maior dificuldade do que eu. A mim ajudou-me a encontrar a minha felicidade! Gostaria no entanto de pedir-te uma coisa preciosa, que prometo restituir-te assim que acabar o meu trabalho com a rapariga que amo.
- O livro?
- Sim!
- Leva-o e dispõe indiscriminadamente da sabedoria nele contida. Há muita gente sofredora por toda a parte e poucos homens capazes de se compadecerem do seu semelhante.
-
O dia começava a despontar; pela entrada da gruta podiam ver-se os tons róseos, que o Sol, do lado oposto da montanha, na sua ascensão diurna derramava sobre a terra.

Amal encontrava-se no recesso que havia escolhido na véspera para se proteger do frio, sobre a pele que estendera na areai. A seu lado, a lenha que não chegara a acender, encontrava-se como a havia deixado, empilhada a seu lado.

Sentia-se enregelado e miserável ao contestar o ambiente à sua volta.

Fora tudo um sonho, pensou desolado, bom demais para ser verdadeiro!

Não pude evitar um sorriso, com que pretendia troçar de si mesmo e das suas fantasias.

...Por certo deveria estar extremamente cansado para se deixar adormecer sem fazer uma fogueira...

Recordava-se agora de haver parado por momentos a meio da montanha, antes de descobrir a caverna e da luta que tivera de travar consigo, para se não deixar vencer pelo sono.

O "Talismã" estava a tomar posse dos seus sentidos e da realidade, pensou o jovem. Não iria prosseguir naquela loucura; Assad há cinco anos que desaparecera e ninguém sabia o que fora feito dele, quem sabe se engolido por algum por algum precipício.

Não sentia vontade de consumir os seus melhores anos na procura de um objecto, que não tinha a certeza de ser real, ou que mesmo existindo, onde o poderia encontrar. O Mundo era tão grande e as montanhas seguiam-se umas às outras!...

Celina e o seu pequeno rebanho eram duas realidades que o esperavam e sabia onde as podia encontrar.

Sua avó sonhara com aquela viagem pelas montanhas e ele havia sonhado um sonho grande, porém irrealizável!... Dois pobres sonhadores!

Era tempo de regressar ao seu pequeno povoado distante, perdido na orla do deserto, de onde partiam as caravanas!

Pondo-se de pé, o jovem fez alguns movimentos a procurar desentorpecer as pernas.

Numa tentativa vã, foi passar as mãos pela parede do fundo da gruta. As rochas eram lisas e não mostravam qualquer fenda que pudesse justificar uma passagem.

Satisfeita aquela última curiosidade, Amal preparou a fogueira para fazer um púcaro de chá.

Após comer um pedaço de pão com queijo, qual dos dois mais duros, o viajante aqueceu-se com uma bebida que acabara de ferver.

Sentindo-se confortado, fez uma ligeira oração de graças a Alá, afim de começar a sua viagem de regresso.

Foi então que notou uma pequena caixa de laca preta entre as roupas. Emocionado, o jovem reconheceu o objecto com que julgara ter sonhado. No seu interior encontrava-se o talismã. Do livro que pedira em troca deste, nem sombra. Para certificar-se das suas dúvidas, ao olhar para o pequeno amuleto com inscrições, viu de novo com clareza como poderia curar a sua querida doente.

Jubiloso com essa certeza, fechou o saco e pondo-o às costas, deixou a gruta.

Em baixo no vale, alguns pássaros elevavam-se na brisa fresca da manhã.

Um velho alto, embrulhado numa estranha capa e apoiando-se a um bordão terminado por um crescente, tendo na face um sorriso enigmático, permaneceu à entrada da gruta, até Amal se perder na distância.

Jan. de 1989