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Sou do mar ou sou da terra,
meu trisavô dos Açores?
Só sei que andaste na guerra
Mais o Rei libertador,
E que depois, no Mindelo, um que na praia saltou
Eras tu - e tão imberbe! -,
Ó avô do meu avô!
David Mourão-Ferreira
("Xácara dos Campos de
Elvas" in Os Quatro Cantos do
Tempo)
***
Jornalismo e Cidadania: Dos Açores à
Califórnia (Edições Salamandra, 2001, com
dedicatória para Urbano Bettencourt) é o mais recente
volume de Vamberto Freitas, ensaísta, crítico literário
e jornalista cultural de créditos firmados em jornais regionais,
nacionais e estrangeiros ao longo das últimas duas décadas.
Amplamente reconhecido por prestigiados críticos e confrades,
a ele se referiu João de Melo como "um homem atento
à sua própria e alheia humanidade, um estudioso
inconformado, um teórico subversivo" . Sobre a sua
envergadura de ensaísta se pronunciou também José
Manuel Mendes reconhecendo-lhe qualidades de "pesquisa, informação,
competência hermenêutica, policromia expositiva, arrojo,
alguma intuição que se não trai, a conjugação
de diversos saberes, uma sensibilidade e uma argúcia admiráveis"
.
Do seu incansável labor em prol da cultura dá vivo
testemunho o conjunto das suas publicações reunidas
em livro : Jornal da Emigração: A l(USA)lândia
Revisitada (1990), Pátria ao Longe: Jornal da Emigração
II (1992), O Imaginário dos Escritores Açorianos
(1992), Para Cada Amanhã: Jornal da Emigração
III (1993), América: Entre a Realidade e a Ficção:
Jornal da Emigração IV (1994), Entre a Palavra e
o Chão: Geografias do Afecto e da Memória (1995),
Mar Cavado: da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas
(1998), A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga (1999).
Deste último volume são coligidos os dois primeiros
ensaios de Jornalismo e Cidadania, que é introduzido por
um iluminante texto proemial de Mário Mesquita - "Divagações
Insulares em Forma de Prefácio" - abrindo com uma
epígrafe de Michael Waltzer, a qual nos diz que "a
característica comum mais importante da humanidade é
o particularismo"(p.7). Não deixa de ser curiosa esta
constatação em plena era da globalização,
pelo que introduz de polifónico, de diferencial, na consonância
de vozes, nem sempre orquestradas com mestria nas ágoras
políticas, onde as vidas anónimas dos cidadãos
são regidas por batutas cada vez mais sem rosto. Tal particularismo
aponta para a identidade cultural própria do arquipélago
açoriano expressa em movimentos culturais de que as obras
de ficção, de poesia ou de ensaio literário
constituem algumas das faces protagonizadas por intelectuais de
sedimentado prestígio nas letras, dentro e fora do arquipélago,
como Vitorino Nemésio, Natália Correia, José
Martins Garcia, entre muitos outros, mas também por alguns
mais novos como João de Melo, Onésimo Teotónio
Almeida, Adelaide Batista ou Vamberto Freitas. São estes
alguns do nomes justamente apontados já em 1993 por José
Medeiros Ferreira, salvaguardadas as diferenças que entre
si apresentam, as quais não deixam de constituir formas
de fecundo particularismo na mundividência insular de "raízes
comovidas" não apenas a oeste, mas em outros pontos
cardeais da rosa dos ventos, que configuram política e
culturalmente o arquipélago, fazendo jus ao título
da obra de onde Mário Mesquita extraiu a epígrafe
supra citada - Pluralisme et Démocratie - que pode também
servir de metáfora apaziguadora a vários títulos,
e, nomeadamente, à questão do universalismo e do
particularismo da literatura açoriana, dizendo Mário
Mesquita que "não parece incompatível admirar,
simultaneamente, Antero no seu olímpico portal da universalidade
e Nemésio na sua proclamada insularidade"(p.12). (Esta
aproximação dos dois autores feita por Mário
Mesquita levou-me a seleccionar para epígrafe deste meu
texto aqueles versos de David Mourão-Ferreira, trineto
de açorianos, e que ainda jovem escolhe Antero para tema
da sua primeira conferência e que dedica, como se sabe,
pela vida fora a sua atenção crítica à
obra de Nemésio).
Afigura-se-me interessante a sintonia entre o paratexto de Mário
Mesquita e o pensamento cultural de Vamberto Freitas expresso
em múltiplos lugares da obra e desde logo no jogo de espelhos
das respectivas epígrafes: ao particularismo enunciado
por Mário Mesquita corresponde no primeiro ensaio de Vamberto
- "Discursos Culturais nos Açores" - a oportuníssima
citação de Nemésio: "Um homem numa rocha
e em volta o mar" que é, em si mesma, metonímia
do espaço-físico da Ilha e sinédoque do espaço-gente
do Arquipélago, isto é, uma extremamente bem conseguida
particularização-generalizante, que reproduz em
mîse-en-abîme a questão da identidade da literatura
açoriana, particular e englobantemente nacional e universal,
segundo se lê no incipit deste primeiro ensaio: "(...)
busca de um entendimento aprofundado da realidade açoriana
adentro do país português"(p.23). Nada é,
pois, deixado ao acaso nestes textos cuja clareza, precisão,
fluidez e elegância de linguagem constituem outras tantas
estratégias de sedução do leitor para a linha
temática que ocupa recorrentemente a escrita de Vamberto
Freitas: "Tive sempre dois temas como área de abordagem,
preocupação inevitável da minha dupla condição
de açoriano agora residente no arquipélago, mas
sempre ligado à experiência imigrante açoriana
nos Estados Unidos: discursos culturais e a memória do
tempo entre os que ficaram e a manutenção da cultura
ancestral entre os que partiram"(p.18). Todavia, aqueles
dois temas significam muito mais do que o autor modestamente deixa
supor. Aqueles dois temas constituem boa parte do thesaurus literário
e cultural, são afinal o fio condutor de que se tecem as
obras-primas, ou as obras raras de qualquer literatura. Por esses
dois temas fica Vamberto condenado a pesquisar os escaninhos da
memória individual e colectiva, as problemáticas
da evasão e do regresso, da comunhão e da solidão
do homem. Por esses dois temas fica ainda Vamberto condenado à
condição de ter de ser um pensador imerso e emerso
da circunstância do seu tempo e simultaneamente da cadeia
de significações literárias - memória
cultural intergeracional. Aqueles dois temas trazem consigo a
marca indelével do cidadão e do pensador construído
a pulso, letra à letra nas páginas dos jornais e
dos seus nove livros, ainda outra metáfora das nove ilhas
ou das nove musas, que, simbolicamente, protegem todo o criador
literário, independentemente do género em que a
sua obra se configure.
Montaigne - o génio criador do género ensaio - sustentou
que a deambulação característica do seu percurso
vivencial teria sido afinal o húmus da sua criação.
A deambulação do autor de Jornalismo e Cidadania:
Dos Açores à Califórnia, peregrino da vida,
carregando às costas ainda adolescentes a memória-evasão
da sua Ilha Terceira natal para as paragens da Califórnia,
será o húmus que fará germinar o jornalista
cultural, de quem Mário Mesquita, então director
do prestigiado jornal, apresenta o seguinte retrato retrospecto:
"Onde o Diário de Notícias julgava ter encontrado
um correspondente que lhe assegurasse o contacto informativo com
os portugueses da Costa Leste, o que já seria excelente
(e mais não lhe era pedido...), descobriu, afinal, um jornalista
cultural, capaz de se aventurar na área da crítica
de livros (de ficção e de não ficção),
portugueses, açorianos, luso-americanos ou mesmo americanos"(p.15).
É, pois, um retrato muito elogioso este que nos chega traçado
pela mão de Mário Mesquita, e também pela
outra mão de Onésimo T. Almeida que em boa hora
o recomendou.
São ainda as deambulações do regresso ao
solo "dos que ficaram" em São Miguel - a outra
ilha, não rival da Terceira, mas salutarmente concorrente
cultural, e ambas matematicamente condenadas a encontrarem-se,
porque as linhas concorrentes quando prolongadas sempre se encontram
num ponto. Será este ponto - lugar geométrico e
geográfico de afectos, da alma cultural das ilhas, que,
prolongado, ainda virá a ser traço de união
a ligar Vamberto ao solo do continente, ao sol e ao mar, água
da memória onde Vamberto recentemente aportou reinventando
nestas saudáveis deambulações "o-espírito-dos-vários-lugares"
que determina nova radicação, que o mesmo é
dizer, nova forma de ver de perto, de conhecer outras gentes,
de criar novos laços, de vivenciar o outro lado da Pátria,
de se enriquecer culturalmente.
À escrita de Vamberto Freitas patenteada neste volume bipartido
- (Primeira Parte: Nos Açores; Segunda Parte: na Diáspora)
- correspondem as duas tipologias ensaísticas enunciadas
por Sílvio Lima no Ensaio Sobre a Essência do Ensaio
: a impessoalista à maneira de Bacon e a pessoalista à
maneira de Montaigne. Constituem particular exemplo da primeira
os "Discursos Culturais nos Açores" e "Jornalismo
e Cidadania nos Açores". Integram-se na segunda muito
especialmente os textos "Carta a João Brum" (excelente
actualização da tradição latina da
epístola, nomeadamente de Cícero e de Séneca),
bem como a comovente "Breve Conversa com o Correio dos Açores".
Mas, o que se me afigura particularmente relevante no conjunto
ensaístico que este livro apresenta é a notável
coerência do pensamento do seu autor, independentemente
do tom discursivo adoptado. É todo um programa de vida
que se lê em filigrana nestes textos, programa esse que
poderá ser definido como uma defesa intransigente de uma
ética da pluralidade e da diferença, que se traduz
na consciência muito nítida da interdependência
cultural, com uma cada vez maior diluição de fronteiras
nacionais, mas também numa imperiosa necessidade de afirmação
e preservação da identidade específica dos
valores próprios da comunidade ancestral, reconhecendo
muito lucidamente o autor que "na cultura haverá sempre
uma convivência entre a tradição e a audácia
intelectual, no sentido de se abalar, ao mesmo tempo que se dá
continuidade às assunções ou cosmovisões
mais vincadas do grupo"(p.46). Esta defesa da Tradição
não é de forma alguma estática e acrítica,
mas antes geradora de radicação dos elementos das
novas gerações: "uma Tradição
perpetuada, renovada de quando em quando, conforme a vontade de
cada geração ou artista individual, desafiada e
até subvertida"(p.42). Uma Tradição
que se constitui como um dos baluartes da acção
cultural em que Vamberto Freitas de há muito se empenha,
pois que inteligentemente reconhece que "uma cultura sem
memória, sem fundamento histórico é uma contradição
insustentável"(p.42).
O jornalismo, e dentro deste o extraordinário papel dos
Suplementos Culturais, é justamente posto em relevo por
Vamberto Freitas (e ao fazê-lo o autor sabe do que fala
já que dirigiu com brilhantismo durante cinco anos - 1995-2000
- o Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores)
: "Os nossos suplementos culturais foram as nossas mais autênticas
universidades"(p.53). Esta afirmação de Vamberto
Freitas recorda-me, aliás, uma outra similar de Fidelino
de Figueiredo, inserta em O Medo da História (1957): "O
jornalista é o professor da actualidade, ensina a vê-la,
a julgá-la, a extrair dela um comportamento". Na defesa
do jornalismo como factor de democratização política
e cultural Vamberto situa-se na linha dos grandes vultos do pensamento
cívico do século XX, na senda de um António
Sérgio, de um Raúl Proença, de um Jaime Cortesão,
de um Raúl Brandão, todos eles mestres espirituais
de José Rodrigues Miguéis. Nunca será de
mais recordar aos intelectuais fechados nas torres de marfim das
revistas especializadas que o défice cultural galopante
que caracteriza este país (e utilizo palavras recentes
de Vasco Graça Moura) necessita de ser urgentemente travado
e para isso é imperioso o empenho de todos os que pensam
e que escrevem em todos os lugares onde a sua voz possa ser ouvida.
Outro tanto nos dizem as clarividentes palavras de Vamberto Freitas
onde ecoa uma nota de Jorge de Sena: "Os agentes culturais
antidemocráticos, em qualquer parte, dependem da ignorância
dos cidadãos, do reino da estupidez e do obscurantismo
generalizado"(p.72).
Na luta contra o obscurantismo ainda no séc. XIX (e outros
exemplos poderiam ser colhidos anteriormente) prestigiados escritores
como Garret, Castilho, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz,
Antero, Ramalho, Oliveira Martins, Rebelo da Silva, Latino Coelho,
Guilherme de Azevedo não desdenharam fazer ouvir as suas
vozes em registo cívico nas tribunas de opinião
dos jornais, como formadores e reformadores de mentalidades. Desse
papel transformador dá boa conta Luiz António de
Assis Brasil referindo-se ao autor deste livro: "Há
pessoas que vivem, bem ou mal o seu tempo; outras há, entretanto
que o transformam. A esta última categoria pertence Vamberto
Freitas (...). Não se eximindo de dar a sua visão
pessoal dos fenómenos, Vamberto marca a presença
de um intelectual disposto a viver o seu tempo (...) mas disposto
a transformá-lo ."
A escrita ensaística e cívica de Vamberto Freitas,
de que o presente volume constitui um dos mais interessantes exemplos,
mostra, com efeito, o seu autor conforme o descreveu George Monteiro
tendo como pano de fundo O Imaginário dos Escritores Açorianos:
"Directo, numa jogada que consegue a um tempo ser agressiva
e apaziguadora, Vamberto Freitas põe as cartas na mesa
(...) cheio de paixão e de convicção das
autênticas reivindicações da literatura açoriana
nas manifestações concretas dos seus textos"
. Tal como apontou também Diniz Borges relativamente aos
ensaios de Mar Cavado, é ainda o compromisso do crítico/escritor
perante a sociedade e a literatura que este livro revela . Será,
pois, um homem plural - soma do pedagogo, do crítico e
do jornalista cultural - que se revela sobremaneira nas páginas
de Jornalismo e Cidadania o qual, conforme Carlos Cordeiro apontou,
"se empenha nessa incessante procura do autoconhecimento
açoriano (...) e da cidadania nas sociedades democráticas",
sendo ainda (em palavras de Carlos Cordeiro que inteiramente subscrevo)
"um importante interventor no debate cultural açoriano,
avesso, como humanista, a todo o tipo de centralismo destruidor
da personalidade e da dignidade das comunidades e, por consequência,
acérrimo defensor da originalidade da cultura açoriana,
ou seja, da identidade cultural do povo açoriano"
. Sobressai ainda mais, se é possível, neste livro
o espírito de missão que tanto enobrece Vamberto
Freitas e faz dele um cidadão exemplar: "escrever
ou fazer jornalismo é, creio, obedecer a um forte chamamento
interior, a uma profunda necessidade de comungar com os outros
toda a tradição intelectual que é a nossa,
e de que uma sociedade aberta (...) não prescinde"
(p.71).
Não será, pois, de estranhar que Vamberto Freitas
deposite tanta esperança no papel das segundas gerações
quer ao nível da investigação ensaística
(de que constitui exemplo o trabalho de Miguel Moniz justamente
posto em relevo neste livro), quer ao nível da criação
literária protagonizada, entre outros, por poetas e ficcionistas
como Frank X. Gaspar, Katherine Vaz, ou Erika de Vasconcelos.
Estes autores motivam-lhe aliás um curiosíssimo
credo cultural: "Creio firmemente que a leitura destes escritores
terá influência no modo como nos percebemos a nós
próprios, principalmente entre as novas gerações
que nas universidades já vão lendo e criticamente
analisando o ser-se açoriano ou descendente de açorianos
na América do Norte"(p.81). Quer a literatura, quer
o jornalismo funcionarão como a necessária voz das
comunidades, posto que "uma comunidade sem voz é uma
comunidade oprimida, feita objecto e instrumento dos outros, perdendo
assim a sua capacidade (e vontade, quando o oprimido se curva
perante o 'destino') de ser sujeito e protagonista do seu próprio
drama e destino"(p.89). A luta contra a desmemória
(interessante neologismo vambertiano) constitui uma das frentes
de batalhas, pois o que importa é não perecer no
vácuo do próprio vazio das comunidades, numa errância
colectiva sem destino ou sonho (p.91).
Observe-se ainda neste livro a harmoniosa conjugação
entre pensamento e imagem visível na belíssima capa
de Álamo de Oliveira onde vemos um barco de papel de jornal
navegando sobre ondas alterosas. (Curiosamente o barquito aguenta-se
direito o que é, em si mesmo, esperançoso prenúncio
sobre o futuro deste papel de/do jornal...). Como oportunamente
escreveu Eugène Delacroix no seu Diário, o melhor
triunfo do escritor é fazer pensar os que podem pensar.
Na ligação entre o pensamento e a acção,
na defesa de uma ética de pluralidade e de diferença,
uma das lições cívicas que veementemente
destaco neste notável livro de Vamberto Freitas será
a profunda necessidade de vivenciar e de transmitir aos outros
a Obrigação da Esperança.
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*Investigadora literária.
(Dirige a organização do Espólio de David
Mourão-Ferreira).
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