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Por Humberta Araújo
A avó era velhinha.
Muito doce e bonita. A pele do seu rosto estava cheia de histórias.
Os seus olhos eram tão profundos e vivos porque já
tinham visto tantas coisas extraordinárias.
A
sua história começou como a de todas as meninas
: no dia em que nasceu. Foi feliz. Cresceu ao colo da sua mãe,
da sua avó, de muitas tias e primas rodeada de muitos animais.
Josefa era o animal que mais gostava. Era um gatinho cinzento
muito fofo e meigo. Mas a sua vida de menina foi muito diferente
da vida das meninas de hoje.
Beatriz levantava-se
todos os dias muito cedo. Quando o galo cantava, a mãe
sussurrava-lhe ao ouvido: "Beatriz... querida...são
horas de levantar."
No tempo em que a
Beatriz era menina, relógios não havia e, os que
existiam eram muito raros. A Dona Deolinda, que vivia na casa
grande, era dona de um destes belos relógios de cuco. Beatriz,
fascinada por aquela máquina de cantar as horas, dava sempre
uma espreitadela pela janela da Dona Deolinda quando por lá
passava.
Nestas alturas era
frequente ouvir o canto do cuco. Foi das poucas meninas da rua
que viu aquela bela máquina de dizer as horas. Isto aconteceu
no dia em que foi com a sua mãe e o seu pai à casa
da senhora do relógio. É que o pai ia começar
a trabalhar na quinta da Dona Deolinda, que tinha muitas uvas
para apanhar, e gado para tratar.
O
relógio pareceu-lhe uma máquina saída de
um sonho. Todo construído de madeira muito luzidia. No
alto estava um belo pássaro.
Logo abaixo uma pequena
janela por onde um cuco amarelo de madeira espreitava com dois
olhinhos muito negros, que a olhavam intensamente. No centro do
relógio estava um círculo com umas gravuras negras,
que Beatriz não sabia o que eram, porque não aprendera
a ler nem a escrever. Eram os números romanos que indicavam
as horas.
Beatriz nunca pensou
ser possível que alguém conseguisse construir algo
tão precioso e belo. Da base do relógio saíam
umas correntes doiradas segurando três pesos com forma das
pinhas, semelhantes àquelas que caíam das árvores
do seu quintal. Ficou então pasmada a olhar o cuco, que
espreitava da sua casinha, sempre que batiam as horas.
"Que coisa linda"
- pensou Beatriz arregalando muitos os olhos quando a pequena
ave amarela saía da sua janela para a cumprimentar.
"É bonito,
não é? disse a Dona Deolinda. - Queres dar corda
ao relógio?
É claro que
queria. A Dona Deolinda pegou então na Beatriz ao colo.
De uma pequena gaveta retirou uma chave doirada. Cuidadosamente,
e seguindo as instruções, Beatriz introduziu a chave
na fechadura do relógio. Foi rodando a chave. Aprendia
assim a dar corda no relógio.
Mas não era
só o relógio que a Beatriz admirava naquela casa.
Ela tinha um outro interesse: um livro com belos desenhos coloridos
e muitas letras que a filha da Dona Deolinda lhe havia oferecido.
"Aquele livro
era tudo para mim" - contou-me a Beatriz. "As minhas
amigas tinham bonecas de trapos de muitas cores. Os cabelos das
bonecas eram feitos de rabo-de-gato, uma corda de lã que
as mulheres e as meninas faziam com um rolo de linha de costura
chamado carrete. O rolo era de madeira onde nós pregávamos
quatro pequenos pregos numa das bases. Arranjávamos depois
fios coloridos de lã que atávamos aos pequenos pregos.
As malhas eram trabalhadas, uma a uma aos serões. A pouco
e pouco o rabo-de-gato surgia pelo orifício inferior e
servia para muitas coisas, entre elas, cabelos para as bonecas
de pano.
Quando era pequena
gostava de brincar. Com as minhas amigas fazíamos festas
do Espírito Santo utilizando coroas de folha para a procissão.
Era também costume organizar uns arraiais com os tradicionais
rifas. Rifávamos cacos e tigelas, ou ainda outras coisas
que as nossas mães nos davam ou emprestavam. Cortávamos
papel em pequenos quadrados e marcávamos alguns com números.
Quem apanhava o bilhete marcado ganhava um prémio.
A gente também
fazia de conta que cozinhava sopas com bocadinhos de couve e batata
em pequenas panelas de barro compradas nas festas do Senhor Santo
Cristo dos Milagres. Mas o que eu mais gostava mesmo era do meu
livro."
A
Beatriz nunca foi à escola. Quando cresceu assinava os
documentos com o dedo ou desenhando uma pequena cruz no papel.
Mas mesmo assim andava
sempre com ele na cabeça. Quando ajudava o pai e a mãe
a apanhar figos para a aguardente, a procurar lenha para o forno
de pão ou a tratar dos irmãos, Beatriz pensava no
seu livrinho.
"Um dia, fui levar
ovos das nossas galinhas à Dona Deolinda. A sua filha que
estava de férias, veio abrir-me a porta e mandou-me entrar.
Fiquei à espera na sala. Foi então que descobri
na mesa alguns livros. Comecei a aproximar-me
um deles chamou-me
a atenção porque era muito colorido. Abri-o para
o admirar melhor. Nesta altura entrou a Dona Deolinda com a sua
filha:
"Beatriz estás
a ver os livros da Maria
mas não sabes ler, não
é verdade? "
"Estou sim senhora.
É verdade eu não sei ler, mas gosto de ver as figuras
"
"Podes levá-lo.
Tem mais desenhos que letras. Um dia, quem sabe poderás
ainda aprender a ler. Leva. É teu!"
E assim foi. Fiquei
com um livro. Eu tinha então dez anos e estava muito contente
mas
não sabia ler".
Por
esta altura, e sempre que podia, Beatriz ficava à porta
de sua casa a ver as crianças da escola. Gostava muito
de se apoiar na cancela de madeira da sua porta pintada de verde
para mirar os meninos e meninas que regressavam a casa. Debaixo
de chuva ou sol as crianças lá seguiam com uma ardósia
debaixo do braço. Não havia lápis e papel.
Mas sim uma pedra negra onde se faziam as contas e os ditados.
Uma espessa folha de pedra negra, emoldurada em madeira. O lápis
era também feito de pedra. Para apagar e corrigir os erros,
as crianças molhavam o dedo indicador com saliva passando-o
pelas palavras ou números. Ou então usavam um pano.
O melhor era quando estava molhado. Aí a pedra ficava muito
limpa. Para secar depressa era preciso soprar muitas vezes e com
muita força.
Aquela folha escura,
que quebrava com facilidade, era para muitas crianças o
seu único caderno.
Beatriz cresceu a trabalhar
nos campos e lavando roupa numa ribeira que cortava a freguesia
ao meio. Cresceu e casou. Teve filhos e depois netos e netas.
Durante todos os anos da sua vida nunca aprendeu a ler, mas também
nunca abandonou o livro que lhe havia oferecido a Dona Deolinda.
Durante todo o tempo de mulher adulta protegeu o seu amigo numa
arca de madeira muito antiga, que tinha pertencido às suas
antepassadas. O amanho da casa, o trabalho no campo e os filhos
nunca lhe deram tempo para mirá-lo como gostaria.
Num belo dia de Verão,
passados muitos anos, Beatriz lembrou-se do seu querido amiguinho
escondido no fundo da velha arca. Abriu-a, e lá estava
ele, tal como o tinha deixado. Abraçou-o com muita força
e lembrou todos os seus dias de menina, o relógio da Dona
Deolinda, a sua mãe, o seu pai.
Levou-o
cuidadosamente
debaixo do braço para o quintal. Sentou-se à sombra
de uma majestosa figueira, que naquele lugar permanecia há
muitos e longos anos. Na figueira havia muitos frutos maduros,
porque dias antes as mulheres da família haviam molhado
os seus bicos com azeite, uma técnica muito antiga, usada
nos Açores para fazer o fruto amadurecer mais depressa.
Beatriz apanha um figo.
Descasca-o como se fosse uma banana. É o seu fruto preferido.
Numa só dentada ele desapareceu. Os figos estavam prontos
para fazer doce à base de uma receita secreta, que lhe
ensinou a mãe, que aprendeu da sua avó, que por
sua vez a tinha guardado de uma outra avó muito antiga,
que já todos tinham esquecido o nome. Só a receita
sobreviveu.
Tomou então
o seu pequeno livro. Procurou um lugar confortável sob
a figueira e sentou-se. Encontrava-se só. A casa estava
silenciosa. Os pássaros cantavam alegremente e ao longe
um cão ladrava.
Cautelosamente começou
a folhear as páginas do seu livrinho já amarelecidas
pelo tempo. Fechou os olhos profundamente e inspirou o ar enchendo
os pulmões. Assim ficou durante algum tempo. Sentiu-se
uma vez mais menina.
Abriu então
os olhos para testemunhar uma coisa espantosa: todas as letras
abandonavam as páginas dispondo-se numa fila ordeira enquanto
construíam as palavras da história.
Uma a uma, as palavras
desfilavam à frente dos olhos de Beatriz como borboletas
dançando e formando uma coroa à volta da sua cabeça.
Cada palavra, ao passar pelos seus ouvidos enchia-se de vida,
lendo-se a si própria. E assim, cada parágrafo foi
circulando ordeiramente à volta de Beatriz, que a pouco
e pouco foi ouvindo toda a história, como se a lesse em
voz alta.
Beatriz
sorriu feliz. À volta da figueira uma luz suave apareceu.
Contente fechou os olhos e adormeceu...
FIM
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