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ESTÓRIAS DA IMIGRAÇÃO NO FEMININO
PARAÍSO PARA AS MULHERES, INFERNO PARA OS HOMENS
Por Humberta Araújo

Boa tarde a todos e todas
Muito obrigado ao José Ferreira pela oportunidade que
me deu para aqui estar neste aniversário da Adiaspora.com
e partilhar convosco o meu trabalho de investigação
que iniciei o ano passado sobre a vida das mulheres açorianas
que emigraram para o Canadá a partir da década de
50 e que regressaram ao arquipélago.
Muito obrigado à organização e a todos aqueles
e aquelas que têm dado o seu tempo e energia para escrever
uma página na saga esquecida da mulher emigrante.
E porque o tempo é de reflexão é bom que
recordemos o sacrifício e a abnegação das
portuguesas no caminho da emigração. É consolador
descobrir as suas estórias e procurar nelas força
para acreditar e prosseguir nos nossos caminhos.
Obrigado por falar de mulheres sem voz que das flores a S. Miguel
do Ontário à British Columbia fizeram a história
da emigração.
A terra espera um milagre
Estórias da emigração no feminino
Canadá: Paraíso para as
Mulheres-inferno para os Homens.
Talvez muitos de vós questionem o porquê deste título.
Haverá quem discorde ou quem julgue que finalmente se faz
alguma justiça aos homens e às mulheres que desde
1953 iniciaram a grande saga da emigração.Todavia
neste título há a considerar que o Canadá
não foi um paraíso para todas as mulheres. Para
muitas e na minha pesquisa falei com algumas delas, este país
foi um autêntico inferno, que se deveu em parte a doenças
do foro psicológico resultantes do brutal corte do cordão
umbilical com a ilha. Como escreveu Edite Noivo «amongst
the most prominent burdens are those brought about by being uprooted
from one´s cultural, social and effective milieu; this is,
in itself, a rather devastating experience resulting in a variety
of psychological, emotional, and identity coasts.»
Da inadaptabilidade a um novo sistema de vida, de trabalho e
de família, à desintegração da estrutura
familiar que durante séculos suportara a comunidade na
ilha, à dificuldade na aprendizagem da língua dada
a falta de um sistema integrado de apoio à mulher emigrante,
e as condições climatéricas foram factores
que influenciaram negativamente a adaptação da mulher
açoriana. A somar a estes factores estava ainda a cultura
machista, particularmente importada de S. Miguel que em muitos
casos obrigou a mulher a ficar em casa, tal como era costume na
ilha. Não podemos também deixar de considerar a
violência doméstica, que no Canadá desenvolvia
na altura (estamos a falar das décadas de 50 a 60) contornos
bem mais gravosos pelo facto destas mulheres, na sua maioria ainda
muito jovens e com filhos não poderem contar com a ajuda
da mãe, da avó, ou de uma amiga e confidente.
Para os homens o novo país foi também o paraíso.
Libertaram-se do pesado jugo paternal, do senhorio e da miséria.
Embora de início sós e enfrentando enormes dificuldades
viam a pouco e pouco o fruto do seu trabalho. Com o tempo reuniam
as suas famílias e de regresso aos Açores eram respeitados
e até invejados pelos seus compatriotas. Aos senhores da
terra não precisavam tirar o chapéu nem sujar na
lama os pés descalços. Estas são as histórias
de sucesso.
Mas e fugindo um pouco ao título deste meu trabalho quero
dar-vos uma pequena imagem de como se iniciou a emigração
das mulheres para o Canadá e nesta História de muitas
estórias que faltam contar. 1954 é definitivamente
o ano em que inicia o processo emigratório de mulheres
açorianas para este país. Nos registos de passaportes
emitidos a emigrantes pelo Governo Civil do Distrito de Ponta
Delgada, na ilha de S.Miguel da qual saíram os primeiros
significativos grupos de homens emigrantes, estão os primeiros
processos das mulheres.
Convém no entanto recuarmos um pouco na história
do processo emigratório dos Açores para o Canadá.
No ano de 53 há que relembrar algumas datas importantes,
entre elas o sábado 14 de Fevereiro dia em que a imprensa
micaelense deu conta das diligências realizadas pelo governo
do Distrito Autónomo de Ponta Delgada no sentido de e,
citamos «solucionar as graves dificuldades provenientes
do excesso populacional» das ilhas. Esta, como se sabe foi
a bandeira oficial para justificar a necessidade de saída
de açorianos. Contudo, esta necessidade tinha raízes
bem mais profundas, conforme atestam muitos autores. A propósito
referem Luís Mendonça e José Ávila
em Emigração Açoriana séculos XVIII
a XX (
) « mais do que um hipotético excedente
demográfico, o arquipélago padecia de uma deficiente
organização da actividade económica.»
Numa perspectiva política há que considerar que
na altura não era muito conveniente reconhecer as fragilidades
económicas e sociais do país e por arrastamento
as ilhas adjacentes. Por isso o excesso populacional transpirou
de todo o discurso oficial. É a imprensa, o principal organismo
que dá conta das primeiras diligências para abrir
a emigração aos Açores. É também
a imprensa que testemunha o envio para Ponta Delgada de um membro
da Junta da Emigração, organismo criado pelo governo
português em Outubro de 1947 para estabelecer os «princípios
e as disposições relativas à protecção
do emigrante e ao condicionamento da emigração que
fosse autorizada».
Convém talvez recordar que em Março do mesmo ano
a emigração portuguesa havia sido suspensa temporariamente
ficando assim por definir as normas relativas à emigração
logo que autorizada. Situação ultrapassada em Outubro
de 47 com a criação da Junta da Emigração,
organismo dependente do Ministério do Interior.
Para os Açores a abertura da emigração
serviu para aliviar os enormes problemas advindos da deficiente
gestão da frágil economia açoriana e proporcionar
aos homens e mulheres das ilhas alguma esperança num futuro
mais digno.
A criação deste departamento especial, cujas competências
nas então chamadas «ilhas adjacentes pertencia aos
governadores dos distritos autónomos, na parte aplicável
para o presidente da junta de Emigração» foi
crucial na história da Emigração portuguesa
pois veio analisar as circunstâncias em que assentavam os
acordos internacionais e contratos de trabalho. Tinha também
a incumbência de defender o emigrante protegendo-o no seu
próprio país contra os angajadores e intermediários.
É então a Ponta Delgada que chega o primeiro membro
da Junta da Emigração, para preparar a primeira
corrente emigratória para o Canadá. É ele
Mário Ferreira da Costa, que vão ter o oportunidade
de ver em fotografia no final desta intervenção,
que de desloca a S. Miguel como inspector «para estudar
em pormenor a possibilidade da saída de micaelenses para
o Canadá.»
A 16 de Fevereiro de 53 realiza-se a 1ª reunião
entre Aniceto dos Santos, o então Governador do Distrito
no Governo Civil, e os representantes da Junta da Emigração
«para tratar em pormenor da nova corrente emigratória,
a estabelecer para o Canadá, sob o Patrocínio da
Junta de Emigração». A reunião decorreu
no Palácio da Conceição em Ponta Delgada.
Na sequência destes esforços os primeiros 20 homens
micaelenses partiam para Lisboa. Dois não passam nas segundas
inspecções: um porque havia feito uma apendicite,
o outro por causa da tenção alta. Aliás conta-se
que o mesmo foi incentivado pelos colegas a beber um copito para
relaxar. Mas não aceitou e ficou pelo caminho. Estes 18
pioneiros, todos solteiros é importante ressalvar, deixam
Lisboa no Satúrnia a 8 de Maio de 53. Esta teria sido «uma
experiência cautelosa e prudente» mas que serviu para
que os patrões canadianos, conforme escreve Abel Dinis
no Correio dos Açores « verificar que o emigrante
açoriano é, por índole própria, trabalhador
e ordeiro (
) e que se adapta admiravelmente aos mais variados
ofícios».
Na sequência desta experiência chega a Ponta Delgada
a 27 de Outubro de 53 uma Junta de Inspecção para
dar cumprimento aos processos legais que levariam ao Canadá
em 1954, 951 açorianos a esmagadora maioria de S. Miguel
um número que representa, sem dúvida, o início
do grande movimento emigratório para este país.
De novo em Ponta Delgada Mário Ferreira da Costa acompanhado
pelo médico José Dias Henriques procede à
1ª inspecção de homens e mulheres interessados
na emigração. Iniciava-se então uma reorganização
das listas já existentes nas Câmaras Municipais de
pessoas que desejavam emigrar .
Estas inspecções, nas quais participaram as mulheres
dos futuros emigrantes que já eram casados e a sua maioria
com filhos, decorram nas instalações do antigo Hospital
de Ponta Delgada, onde actualmente está instalado o Serviço
de Atendimento Urgente. É que quando os homens «iam
fazer os papeis» faziam-no na companhia das esposas e dos
filhos, conforme me confirmou Rui Guilherme de Morais tradutor
da equipa de inspectores canadianos. «As mulheres
disse-me vinham junto com os maridos para a inspecção.
A questão é que ao Canadá interessava - e
isso sabíamos pelas conversas que se tinha nos bastidores
- que estes homens se canadianizassem e se fixassem no país.
Daí que nas ilhas o grupo familiar ficava já pronto
para emigrar logo que os homens reunissem as condições
indispensáveis para mandar buscar as famílias.»
Como se sabe os candidatos a emigrantes em 54 deviam ser «
sexo masculino, entre os 20 e 35 anos, habilitações
literárias mínimas a então 3ª
classe da instrução primária - robustez física
devidamente comprovada por radiologia do tórax, filhos
só até três, capacidade financeira para as
despesas de deslocação nesta altura falava-se
de 10 contos. Micaelenses com profissões de trabalhadores
agrícolas e vinhateiros estavam no topo da lista.
Nestas inspecções participou uma equipa canadiana
composta pelo diplomata Odilon Cormier adido da Emigração
na Embaixada canadiana em Paris que se fez acompanhar pelo funcionário
da Polícia de Emigração Percy Colville e
o médico Pierre Bélanger. Esta equipa trabalhou
em S. Miguel durante 5 meses «ininterruptamente» conforme
palavras de Aniceto dos Santos no discurso de recepção
às missões do Canadá, do Ministério
da Economia e Junta de Emigração a 19 de Março
de 1954. Nas outras ilhas o trabalho de inspecção
também decorria por José Neves Belo membro da equipa
da Junta de Emigração chefiada por Ferreira da Costa.
O adeus das mulheres no Molhe Salazar
Até ao reencontro
Traçamos aqui um pouco da história que nos leva
aos primeiros passos das mulheres açorianas em toda esta
saga emigratória. No dia 22 de Março de 1954 os
primeiros 330 homens chegavam com as suas famílias ao Molhe
Salazar. Dos 951 permitidos pelo governo canadiano para aquele
ano todos foram dos Açores conforme decisão expressa
do governo português. Em 54 homens de outras ilhas só
foram em pequeno grupo neste dia 22. Conforme os documentos da
época, destes 330, 241 homens eram solteiros e 89 casados.
Conforme relata a imprensa
«Destes, das ilhas do
Oeste foram 54 emigrantes assim distribuídos: 20 Terceira,
16 Pico, 9 Flores, 6 Graciosa. S. Jorge e Corvo 1 homem de cada.»
Alguns sorridentes, outros chorosos agarrados aos braços
dos amigos e saboreando as últimas carícias das
suas mães, esposas e noivas eles levam as suas malas de
cartão e as sacas de pano com alguma comida, onde a mão
da mulher açoriana deixou o seu traço em algumas
delícias da genuína gastronomia das ilhas. Partiram
no paquete HOMELAND com violas da terra, bandeiras portuguesas
e quadros do Arcanjo, Gabriel. Seguem-se-lhes no dia 23 de Abril
mais 450 homens de S. Miguel no HOMELAND e 4 dias mais tarde partem
mais 171 micaelenses no Paquete Nea Hellas todos rumo a Halifax,
na Nova Scotia.
Com este magote de homens longe da terra começava uma
nova página na vida de muitas mulheres açorianas
que mais tarde as levaria a uma terra estranha e que muitas aproveitaram
para conquistar uma autonomia e liberdade até então
nunca conhecidas nos Açores. (
)
É portanto justo afirmar que o dia 24 de Janeiro de 1954
marca a saga da emigração no feminino. A primeira
leva de passaportes emitidos a mulheres dá-se em Janeiro
de 1954. Catorze registos são assinados no Governo Civil
do então distrito de Ponta Delgada a 14 mulheres e mais
de duas dezenas de crianças.
Nos passaportes a preto e branco, o seu olhar é assustado
bem o retrato de uma época onde a interrogação
preenchia o grande horizonte da Ilha. Os requisitos legais são
cumpridos à risca a par com os maridos.
Uma vez que me faltam confirmar ainda alguns dados de outras
ilhas vou reportar-me só a S. Miguel porque foi a ilha
com maiores taxas de emigração na década
de 50. No todo nacional e de acordo com números da Junta
da Emigração: «no total da Emigração
portuguesa (1950-69) para o Canadá os 3 distritos apresentam
60,3% do total: destes 48,1% vinham do distrito de Ponta Delgada»
MC MARINHO Emigração Portuguesa desde 1950.
De 25 de Janeiro de 1954 a 31 de Março do mesmo ano foram
pedidos 479 passaportes por mulheres micaelenses. Durante este
período quase desaparecem os pedidos de passaportes para
os Estados Unidos da América, Brasil ou Bermudas. A partir
de Abril do mesmo ano e até Dezembro de 1955 as emissões
para o Canadá são praticamente nulas. Novo grupo
inicia-se em Janeiro de 1956 mês no qual são emitidos
103 passaportes para homens e 13 para mulheres. A 1 de Fevereiro
de 1954 estavam já carimbados meia centena de passaportes
conforme atestam os registos em S. Miguel.
Uma vez que este não é um trabalho estatístico,
e dadas as limitações das fontes, não nos
é possível apresentar dados concretos sobre as datas
de partida ou garantir que todas as mulheres com registos de passaporte
acabaram por embarcar para o Canadá, uma vez que muitas
nunca chegaram a pôr os pés neste país aguardando,
em alguns casos durante dezenas de anos, a vinda de vez
do marido. Por exemplo, no Concelho do Nordeste ilha de S. Miguel
muitas destas mulheres, que literalmente nunca puseram os pés
no Canadá, ficaram conhecidas como as canadianas. Como
aqui vimos e embora se possa comprovar por concelhos quem são
os primeiros 951 homens que emigraram em 1954 não foi encontrada
qualquer indicação oficial da data de partida destas
mulheres. Enquanto em 54 os jornais e rádio micaelenses
registam o adeus em massa destes homens, o silêncio é
total quanto às mulheres, que não tendo sido objecto
da pena dos jornalistas ou das câmaras dos fotógrafos
de altura, foram relegadas ao esquecimento.
Todavia, os documentos relativos às emissões de
passaportes comprovam que é a partir de 1954 que elas iniciam
os processos burocráticos que as levarão ao Canadá,
seguindo as pisadas dos maridos.
Mulheres solteiras, casadas
Num pequeno à parte gostaria de reafirmar que nem todas
as mulheres que se aventuram nestes primeiros anos para o Canadá
são casadas. Foi o caso de Maria Júlia de Água
de Pau freguesia do Concelho da Lagoa de quem falarei um pouco
mais tarde. Algumas, portando vão sós, solteiras
muito poucas, contudo. Iam destinadas ao trabalho doméstico
ou outro através de contratos de trabalho. Contudo, a grande
maioria das mulheres inicia o processo de emigração
para acompanhar o marido e dar vida ao objectivo da lei canadiana
de junção das famílias.
Esta uma realidade comprovada por Berta Reis que se presume
ser a primeira açoriana, natural da freguesia de Rabo de
Peixe na ilha de S. Miguel a pisar solo quebequense a 5 de Maio
de 1955. Por pouco não acompanhou o marido na viagem do
HOMELAND em 1954. Poderia ter sido a única mulher açoriana
no meio de mais de três centenas de homens. E não
o foi, disse-me o ano passado em Montreal, porque a equipa médica
«quando me auscultou percebeu que eu estava de esperanças.
Mas isso eu já sabia porque a menstruação
já me tinha faltado.»
Mas quem são estas primeiras mulheres emigrantes.
Partem mulheres que não sabem assinar. Poucas. Segundo
Guilherme de Morais, embora a escolaridade mínima fosse
importante para a selecção dos homens, no caso das
mulheres o que acontecia era que muitas iam para a escola para
obter o diploma nem que fosse só para escrever o nome.»
Alguns passaportes testemunham o analfabetismo destas mulheres,
como foi o caso de Diamantina Silveira hoje viúva, natural
da ilha de S. Jorge onde nasceu em 1908. Emigrou já tinha
mais de 50 anos e que conheci agarrada ao terço na sua
ilha Natal já com mais de 90, junto dos seus familiares
mais próximos.
Todavia as primeiras emigrantes são na sua maioria casadas
com filhos. Levam consigo a terceira ou quarta classe, mas acima
de tudo transportam a cultura das ilhas. São sem dúvida
as guardiãs dos usos e dos costumes. Levam no currículo
o trabalho no campo, o manejo do gado, a apanha da lenha e das
lapas, as artes da cozinha, as rendas e os bordados. Nos olhos
acartam as lágrimas das mães e avós que ficaram;
na alma o terço, o Espírito Santo, as ladainhas
e as novenas, os registos do Santo Cristo e as coroas da Santíssima
Trindade. São caminhadas que a História não
registou tão acostumadas eram as suas estórias .
Com a partida dos maridos e dos noivos, elas continuaram nas
ilhas na guarda do lar...por algum tempo
para mais tarde
o embrulhar numa manta de retalhos, e o transportar para longínquas
paragens com cheiros a salsa e coentros, cebolinho, molho de vilão
e cominhos. Até lá ficam à espera das cartas
e algumas economias.
A liberdade mete medo mas torna a mulher mais rija
A pouco e pouco a partida dos homens inicia nas mulheres açorianas
um longo e lento processo de transformação que afecta
não só aquelas que partiram, mas de uma forma peculiar
também as que ficaram porque se lhes abriam portas até
então desconhecidas, entre elas a possibilidade de seguir
uma irmão ou irmã, ou arranjar um casamento com
um homem emigrado e não nos podemos esquecer que
muitos dos homens solteiros e descomprometidos que emigraram a
partir de 53 acabaram por regressar aos Açores para arranjar
mulher para casar. Muitos conhecimentos foram feitos através
de cartas onde a necessidade de arranjar companheira da sua terra
nem sempre permitiu que homens e mulheres tivessem tido o tempo
suficiente para se conhecerem. Por outro lado abria-se também
caminhos através de contratos de trabalho.
Podemos então dizer que de uma forma muito ténue
para as mulheres casadas que viam os homens partir o desconhecido
bate-lhes à porta disfarçado num pouco de liberdade
tímida que lhes vai preparando para a profunda transformação
que se irá operar nas suas vidas.
De acordo com os documentos oficiais verifica-se que estas mulheres
ficam então à guarda dos sogros ou dos pais, obrigadas
a fornecer às autoridades o nome e endereço do parente
mais próximo.
Apesar desta prisão que garantia que elas não
fossem abandonadas sem meios materiais que lhes permitisse viver
até se juntarem aos companheiros ou ao regresso destes
, algumas mulheres, após a partida do impenetrante (assim
chamado oficialmente o homem que partia), conseguiram, mesmo assim,
viver o seu direito a uma autonomia condicionada quando provavam
ser donas de bens próprios para o sustento na ausências
dos maridos.
Mesmo assim tinham de apresentar um termo de responsabilidade
assinado pelos pais ou sogros, documento este que carecia ainda
do carimbo da Junta de Freguesia, entidade responsável
por atestar a verdade dos termos de responsabilidade.
Outras mulheres ficavam à guarda dos chamados homens
de bem. Uma destas nossas avós de S. Miguel ficou
à guarda de um comerciante que se comprometia sustentá-la
«com alimentos e outros» enquanto o marido se encontrasse
ausente.
Para inúmeras mulheres, esta dependência do jugo
familiar ou de outro, foi ao mesmo tempo um duro retrocesso nas
suas vidas. E, isto porquê? Há que compreender que
para uma grande maioria de jovens mulheres o casamento significou
uma libertação há muito desejada do jugo
paterno.
Como terei oportunidade de vos mostrar através de alguns
depoimentos, a vida na família era extremamente difícil,
dividida pelos afazeres domésticos e do campo, o que para
muitas não deixava tempo para outras actividades que lhes
permitisse alguma autonomia de movimentos, pensamento ou de criatividade.
Não pretendo aqui afirmar, pois seria naíve da
minha parte fazê-lo, que o casamento foi a via para uma
vivência autónoma na plenitude que sonharam. Todavia,
deixou que muitas ao assumirem a responsabilidade de gerir a sua
casa conhecessem um espaço próprio e autónomo
que lhes permitiu gerir as suas vidas e decidir das portas para
dentro. Com a partida dos maridos recaíam sobre elas, de
novo, os olhares castradores das sogras, dos parentes, da comunidade
e da própria Igreja. Atendendo ao seu baixo nível
de escolaridade a autonomia no novo mundo foi reconquistada pelo
trabalho árduo ao qual não estavam alheias. Obrigadas
desde meninas a responder aos diversos desafios derivados das
variadíssimas tarefas que tinham de desempenhar no espaço
doméstico feminino, e no campo mais vasto do trabalho masculino,
como por exemplo na agro-pecuária e em algumas industrias
como o chá, ou a espadana, ficaram todavia talvez melhor
preparadas para conseguir conquistar, de uma forma muito particular,
as dificuldades do novo mundo. A mulher emigrante contactou muito
de perto com a dureza do trabalho a partir dos sete a oito anos
de idade ao ajudar a família nas tarefas domésticas
que consistiam no apoio aos irmãos mais pequenos, limpeza
da casa ou preparação dos alimentos restando o trabalho
nas novidades da terra junto dos pais que para além da
terra podiam ter gado, porcos ou galinhas. Isto implicava muitas
horas partilhadas com os adultos na recolha dos cereais ou frutos
- tais como as uvas para o vinho ou os figos para a aguardente
- dependendo da ilha em que viviam.
A lavagem da roupa na ribeira era outra dura realidade que não
descansava com as estações do ano. Algumas desde
muito jovens foram trabalhar como «criadas de servir»
(termo muito usado na ilha de S. Miguel) nas casas dos senhores
ricos, deixando as famílias nas aldeias que só visitavam
durante as festas anuais.
Este viver calejado deixava-lhes muito pouco tempo para outras
actividades, como as rendas e os bordados que apesar de tarefas
muito meticulosas e cansativas, eram fonte de prazer, convívio
e de algum meio financeiro que revertia a favor da compra de bens
essências para qualquer menina e moça.
De registar que algumas jovens não tiveram a aprovação
paterna para dedicar algum do seu tempo as estas actividades pois
eles exigiam toda a sua disponibilidade para o trabalho no campo,
sempre que este surgisse.
Recordemos aqui algumas das actividades que lhes eram queridas:
as rendas, os bordados, a preparação do linho, a
costura. Este trabalho extra-efectuado depois da casa e do campo
- permitia alguma realização pessoal num espaço
único de criatividade e sociabilidade.
Convém ter presente que as rendas, os bordados, as colchas
e tapetes de retalhos, as mantas e lençóis revertiam
a favor do dote, enquanto que, por exemplo, os bordados permitiam
amigalhar algumas míseras serrilhas (moeda da altura) para
a compra de uns sapatos, meias, lenços de cabeça
ou para os véus, sem os quais as mulheres não podiam
entrar na Igreja. Sentadas no átrio das suas casas as jovens
bordavam para os senhores que em muitos casos não pagavam
com moeda o trabalho concluído mas sim trocado por tecidos
aqueles que havia e a gosto do lucro dos comerciantes.
Com estes tecidos fazia-se, em casa, os vestidos domingueiros
ou das festas da freguesia.
Muito deste trabalho era executado à noite à luz
do candeeiro de petróleo, ou candeias a óleo de
baleia, bens que tinham de ser igualmente poupados.
Para as jovens essas actividades puramente femininas tinham
também uma componente cultural muito importante: iniciavam-nas
no processo do casamento, cuja concretização fazia
delas membros respeitáveis da sociedade e donas dos seus
destinos.
Esta é uma caracterização muito sucinta
da vida da mulher açoriana antes de emigrar, pelo menos
daquelas que entrevistei o ano passado e cujas estórias
estou a preparar para a edição de uma obra sobre
a Emigração de Mulheres dos Açores para o
Canadá. Se me permitem agora, e prometo ser rápida
dado o adiantado da minha intervenção, vou partilhar
convosco excertos de algumas estórias.
De São Miguel às Flores
do Quebec à
British Columbia
Maria Júlia do Espírito Santo Almeida. Nasceu a
14 de Maio de 1928 no Concelho da Lagoa, freguesia Água
de Pau. Emigrou solteira a 1 Agosto de 1958. Chegou a Montreal
dia 2.Tem 74 anos
6H00 da manhã. Estava um dia maravilhoso.
Maria Júlia, com o coração nas mãos,
fecha a porta do nº 2 da Rua Valverde em Água de Pau,
freguesia do Concelho da Lagoa. Tinha então 30 anos de
idade. O que mais me custou foi fechar as portas da minha
casa. Deixá-la vazia. Fechá-la sem saber quando
voltava. Foi um bocado duro. A gente pensa que uma casa não
nos é nada, mas ela diz-nos qualquer coisa, e isso nos
choca. Encheu os pulmões de ar e orgulho: Eu
vou deixar a minha casa. Para onde é que eu vou? Mas depois
tive que pensar no futuro e esquecer.
Órfã de pai e mãe. Dá a volta à
fechadura. (...) Era preciso coragem e dizer adeus à terra
em silêncio.. Depois de partir, paciência. Tive
que pensar na outra vida que me esperava.
(...) Partiu de táxi com algumas amigas, a irmã
e os dois sobrinhos em direcção ao aeroporto de
Santana, o aerovacas como era conhecido. Depois apanhei
um avião de 5 pessoas. Eu, a minha irmã, os dois
pequenos e um rapaz. Fomos às 7 horas da manhã para
Santa Maria. (
) A nossa viagem para o Canadá ia ser
feita a 2 de Agosto à uma da manhã na Canadian Pacific.
A viagem levou 11 horas.
Aos 73 anos, quando lhe entrevistei recordava com firmeza
aquele dia em que deixou Água de Pau: Foi um dia
de alegria e tristeza. É o que lhe posso dizer. Deixei
muitos amigos atrás. Fui a primeira emigrante que tivesse
embarcado daqui para o Canadá, como turista.
Chego a Montreal e fui separada da minha irmã.
Fiquei completamente sozinha sem saber dela e sem falar nada em
francês ou inglês.
(
).
Cansava-me de perguntar por minha irmã. Ninguém
me respondia E o aeroporto não era o que é hoje.
Eram umas tábuas a dividir as repartições.
Até onde se punha as malas era feito de madeira. Passava-se
ali de qualquer maneira. Não é como hoje. Eu vi
o aeroporto velho. Ninguém português para explicar
fosse o que fosse. Nem a minha própria irmã eu via.
(
) Ainda por cima eu estava descalça, com
os sapatos na mão. Imagine! Estava com os pés inchados
depois de onze horas de avião. Eu já não
podia com os sapatos. Foi o meu primeiro sofrimento no Canadá.
Depois eu vim a compreender que o homem do aeroporto devia estar
a pensar: esta rapariga deve estar doida.
(...)
Perdida em Montreal
Era como se tivesse que ir para Vila Franca e acabasse
no Nordeste. Perdi-me com as minhas cavalas que ia cozinhar para
o jantar. Depois de algum tempo desencontrada na rua Saint-laurent
encontrei um polícia e mandei-o parar. Depois expliquei-me
meio português, meio francês: Monsieur, eu quero ir
para Champ-de-Mars. Tenho aqui poisson. Quero fazer peixe pour
dinner. O polícia estava numa daquelas motas que tinham
uma barquinha ao lado. Eu já estava muito nervosa. Falava
mal o francês, mas enchi-me de coragem olhei para ele e
disse-lhe: Vous vá mapporter a Champ-de-Mars. Apareceu
na rua entretanto um senhor do continente e eu expliquei-lhe a
minha situação. Ele lá disse ao polícia
onde eu morava, e eu vim de mota para casa.
Maria Júlia diverte-se ao contar este episódio,
que demonstra bem uma força de vontade vulcânica.
Era Inverno. Estava com um capuz na cabeça e vim
ali sentada com tanto frio, apanhando aquele sinó todo.
Mas, apesar de todos estes contratempos ainda cheguei a casa a
tempo de consertar as cavalas. Contei a história a minha
irmã e aquilo foi um tal a rir as duas.
Maria Júlia do Espirito Santo, natural da Lagoa numa
moto da polícia de Montreal quando as jovens da sua idade
na ilha iam já iam embalando os seus primeiros filhos.
(...)
«Trabalhei na fábrica. Mais de 100 mulheres. No
Verão o calor era tanto que a água escorria cara
abaixo. Era uma injustiça. Mas foi preciso.»
Achei-me muito decidida...
Mulher açoriana, solteira num país estranho e longe
da terra, da língua e da sua bandeira descobriu-se muito
decidida. A vida foi outra. Aquela coisa do acanhamento que a
mulher tem nos Açores, a vergonha...tudo isso passou. A
gente tem que viver. Eu perdi muito disso no Canadá. Não
ia deixar que fizessem pouco de mim.
(...)
FIM
Isabel da Conceição Resendes Ferreira Armas, viúva.
Nasceu em Santa Cruz das Flores a 16 de Fevereiro de 1935. Imigrou
para a provincia da British Columbia aos 26 anos a 17 de Março
de 1958. Vive actualmente em S. Miguel
Eram os doces tempos da adolescência. O Verão passara-o
entretida nas idas à ribeira, nos afazeres da casa e do
campo, nas festas religiosas, arraiais e nos passeios ao calhau
para a apanha das lapas. Isabel da Conceição, nasceu
na parte leste da ilha das Flores, zona que viu distribuídas
as primeiras dadas de terra por Pedro Fonseca, no longínquo
século XVI, hoje, Vila de Santa Cruz.
Outubro estava à porta. Adivinhava-se o tempo das grandes
caminhadas até aos campos de araçás. Com
as irmãs, Isabel da Conceição juntou um grupo
de amigas e lá se aventurou até à Caveira
para a apanha dos frutos.
Isabel da Conceição Resendes Ferreira Armas, natural
de Santa Cruz das Flores, Vila que viu muitos corsários
a embater nos seus ancoradouros, revelou desde cedo um espírito
forte. A vida durante a juventude foi difícil apesar
de não nos faltar o pão à mesa. Vivia-se
da lavoura paterna que era suficiente para casa. Mas dinheiro...
bem sabe.
(...)
O dia a dia das raparigas passava-se à volta da cozinha.
Minha mãe ensinou-me a mim e às minhas cinco
irmãs a fazer pão, a cozinhar e a limpar. Enfim
a lida de uma casa.
(
)
Na casa da família Ferreira a gestão do trabalho
doméstico incluía divisão de tarefas. Eu
e a minha irmã mais velha dividíamos os afazeres.
Uma semana uma fazia o trabalho da cozinha, a outra o dos quartos.
E na semana seguinte a gente trocava. Era assim. Lavávamos
a roupa à mão na ribeira.
(...)
O nível de escolaridade era baixo. Não completei
a 4ª classe. Tinha quase para 12 anos e já me achava
uma mulherzinha. Não quis ir mais para a escola. Os meus
pais também concordaram porque eu já ajudava muito
em casa.
A escola primária de Santa Cruz também foi palco
privilegiado para conhecer a realidade sócio-económica
das ilhas. Via-se pela maneira que se vestia. É verdade
que havia roupas da América, mas outras pessoas não
tinham...não tinham para vestir. Lavavam à noite
para vestir no outro dia.
Era difícil. Mas pronto. Ultrapassou-se a pobreza. Mas
não foi fácil.
(
)
Os dias da juventude de Isabel Armas foram passados na pacatez
da ilha, monótonos pouco abalados pelo exterior. Notícias
só se sabiam quando o navio Carvalho Araújo vinha
de mês a mês.
Muitos ...muitos meses me lembra eu, do navio não poder
fazer serviço para a ilha, porque o mar estava muito bravo.
Uma vez o Carvalho Araújo chegou a estar três dias
fora das Flores sem poder fazer serviço. Acabou por levantar
ferro e ir-se embora. E nós a vê-lo partir sem saber
quando podia voltar. Só regressava no mês seguinte.
O casamento e a primeira viagem
(
)
O meu marido era da Ribeira dos Barqueiros e vinha cá
baixo. Pediu autorização a meu pai para saber se
podia falar comigo à varanda ou ao portão. E minha
irmã foi a mesma coisa. Nunca caminhávamos sós,
os dois. Estávamos sempre acompanhados por um irmão.
Naquela altura pensávamos ficar nas Flores. Nunca
nos ocorria sair para outro lado. Mas depois abriu a emigração
e os horizontes das pessoas começaram a mudar. Para
muitas mulheres a saída da ilha só se deu através
do casamento e da emigração.
A primeira mudança radical da vida de Isabel foi o casamento(
).
Para dizer a verdade eu não tive um casamento igual
às outras raparigas. O meu noivo estava na tropa na Terceira.
Eu casei... ou melhor...ele casou por procuração
na Igreja de Santa Luzia, que hoje já não existe,
por causa do tremor de terra. Mas recebi a benção
nas Flores quando ele chegou.
Até lá ficou com a sogra-madrinha com quem aprendeu
a tarefa da ordenha das vacas.
No início não foi fácil mas tive
que aprender. A primeira coisa que pensei foi: será que
vou conseguir tirar o leite todo? Os pulsos doíam-me muito,
mas eu estava habituada a trabalhar. É que eu ia à
lenha, dava a comida ao gado; trabalhava nas terras; eu sachava
milho. Já em casa dos meus pais era assim.
(
)
O meu marido recorda Isabel teve
sempre uma grande vontade de emigrar. Muita, muita mesmo. É
que não havia muitos dinheiros. Ele trabalhava nas terras
e eu ajudava. Quando abria empreitadas da Câmara Municipal
(
) era para lá que ele ia. Só aí é
que fazia dinheiro.
O pagamento, este demorava apesar do trabalho estar concluído.
Depois levava-se tanto tempo para receber aquele dinheiro.
Às vezes era preciso vender umas batatas doces, que fazíamos
com muita quantidade.
(
)
Casados de fresco a ideia do marido de emigrar não o
abandonou levando a que agarrasse a primeira oportunidade que
surgiu com a abertura da imigração para o Canadá.
Ele não tinha ninguém no Canadá. Foi
para lá trabalhar sozinho. Partiu a 25 de Março
de 1957. Fiquei ainda um ano, em S. Miguel. Embarquei depois a
17 Março de 1958.
Papeis e mais papeis
Embora não tivesse partido na companhia do marido, Isabel
Armas, como a maioria das mulheres concluíra o seu processo
burocrático com o marido. Processo exaustivo que incluía
entre outros testes de aptidão física e de saúde
mental. O dia da partida esperou-o com ansiedade. (
) Lembro-me
bem desse dia quando tive de apanhar aquela avionetazinha para
Santa Maria. Fui para Santana de manhã. O aeroporto
era nuns pastos com vacas. E as vacas viam a avioneta caminhar
no ar e caminhavam na carreira com o avião
e eu disse:
oh meu Deus...mas pronto. Lá ia eu. (
). O
que é que pensei durante esta viagem? Eu cá sei!
Foi uma viagem mais demorada do que eu pensava. Eu só dizia...estou
cada vez mais longe...cada vez mais longe. Levamos 10 horas para
chegar a Nova Iorque na TWA.
(
)
Vancouver...do sonho à realidade
Depois de muitas horas de voo, à chegada a Vancouver
esperava-lhe o marido. Quando olho para mim estava ele e
outro amigo, dentro do avião. Parece impossível
terem deixado entrar alguém no avião. Hoje em dia
nem por pensamento. Quando cheguei, o jantar foi feito em
casa de uns amigos, e depois fomos para o nosso apartamentozinho.
Uma coisa mesmo pequena. Mas tinha cozinha, quarto de sala com
sofá cama, e a casa de banho. Era só isso.
Nesta primeira habitação compartilhada com outros
imigrantes não havia açorianos. Nas casas
ao lado, e em frente, sim. Mas na nossa não! Osportugueses
tinham uma coisa. Tinham que estar todos juntos, não longe
unsdos outros. (...)
Da imigração uma coisa tinha a certeza. Eu
tinha era que trabalhar.Porque num país onde não
se tem nada há sim que trabalhar. Nos primeirostempos achei
tudo tão diferente. As comidas eram o pior. Eu fazia damaneira
que sempre fiz, mas não tinham o mesmo sabor da nossa terra.
Eugostava muito das minhas couves que lá não usavam
(
)Fizemos um pequeno quintal e era tal e qual nas Flores.
Couves, nabos alfaces, cenouras...uma coisinha de tudo.
Eu queria o sabor dos temperos do lugar que eu tinha deixado
para trás. Naquele tempo não havia ainda lojas portuguesas
em Vancouver. Eu ia a uma loja italiana onde comprava também
o bacalhau. Fazia também as nossas sopas de feijão,
à minha maneira, e nada daqueles feijões enlatados
que eu não gostava nada daquilo. Com o tempo fui-me habituando
às novas comidas. Mas um encontro especial deixa-a
particularmente feliz: um encontro com os cominhos!
Fiquei muito contente quando encontrei na prateleira da
loja italiana os cominhos. Podia finalmente aproximar-me dos sabores
das Flores. (
)
À volta da mesa do mordomo
Em Vancouver também a cozinha de Isabel Armas exalava
os aromas típicos das ementas dos dias de festa dedicados
a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santa
Cruz. A estes dias vieram juntar-se aqueles dedicados ao Espirito
Santo. Os nossos açorianos das Flores mandaram vir
uma coroa da Califórnia e fizeram a primeira festa. A minha
sobrinha tinha trezeanos quando ela foi rainha da coroa. Ela hoje
tem 46. Veja lá, já foi há uns bons anos.
Foi em 1968 o ano da primeira festa do Espirito Santo em Vancouver.
(
)
A primeira festividade religiosa em honra do Espirito Santo
marcou também uma profunda mudança nos hábitos
desta mulher das Flores já enraizada nos costumes de uma
cidade canadiana que se expandia e modernizava. Foi o ano
que nos mudamos para o farm. Duzentas e sessenta e uma milha
desviada de Vancouver. Não gostei desta mudança.
Estava longe dos meus irmãos que entretanto tinham vindo
para o Canadá. (...)
Uma das situações mais difíceis que teve
de enfrentar e superar foi o grau de alcalinidade das águas
na quinta. Mulher de apreciar a sua chávena de chá,
até este pequeno prazer foi-lhe retirado. Quando
fervia a água para o chá ficava sempre uma goma
por cima e por isso a minha irmã Isabel me dizia sempre:
quando vieres a Vancouver leva muita água para fazeres
o teu chá.
E fez-se uma vez mais mulher. Depois disse para mim mesma:
eu tenho queme habituar. Tenho que ser mulher. Tive mais de 10
anos lá e tinha que ser.
Estar agora nos Açores é estar em Ponta Delgada,
uma cidade. Eu adoro a minha terra...as Flores. Vou lá
muitas vezes. Compramos recordações e matamos saudades.
Mas para viver não. Estou feita a um outro ambiente. Voltar
ao Canadá de vez? Agora viúva?Não.
Fim
Estes são pequenos excertos de estórias verídicas.
Actualmente São escassos os estudos sobre a emigração
de mulheres dos Açores para o Candá. Trabalhos como
os de Edite Noivo, Manuela Marujo, Fernando Nunes entre outros
são já referências importantes para a História
ainda por contar do fenómeno emigratório feminino.
Do que já foi escrito ainda por Apalhão e Pereira
da Rosa, Salvato Trigo, Nuno Lopes, Carlos Teixeira, as mulheres
ficavam nos Açores à espera que os maridos tivessem
capacidade financeira para as chamar. Os maridos esculpidos pela
cultura patriarcal das ilhas moldaram a forma de pensar e agir
das mulheres açorianas que emigraram. Antes dos namorados
e dos esposos o barro foi trabalhado pelos pais e irmãos.
A figura paterna tinha um grande poder. Ao contrário do
que se possa pensar o seu papel não se limitava, como aqui
vimos, a uma existência omnipresente. A sua era uma existência
física constante que limitava a autonomia feminina já
duramente circunscrita ao poder absoluto da mãe. O pai,
homem não só esperava a perfeita obediência
aos cânones impostos pelo poder matriarcal por si legitimado,
como impunha as suas próprias fronteiras, através
da obrigatoriedade do exercício de tarefas puramente masculinas,
sem as contrapartidas que os homens da casa fruíam.
Recordemos outra emigrante,Lusa de Sousa da Graciosa: Depois
da saída da escola «o que eu fazia era ir para a
agricultura com o meu pai. Ia respigar no tempo de ceifar o trigo
e a cevada. Isto consistia em apanhar todas as espigas que caíam
das mãos na ceifa. «Era uma maneira de a gente ter
mais alguma coisa. Eu ia atrás do meu pai com uma tia minha
viúva com seis filhos (
) a respigar. Juntava-se o
que ficava atrás e fazíamos umas maúças
que depois de bem secas ao sol esfregava-se num cesto de carreta
para debulhar. Eu apurava aquela novidade para a gente.»
No Canadá as coisas passaram-se de forma muito diferente.
Ao contrário de alguns autores que são de opinião
que a maioria das mulheres ficou em casa por razões culturais
ou pelo número de crianças da família, a
minha experiência diz o contrário. Para já
cada casal só podia candidatar-se se tivesse três
filhos. Por outro lado, a obrigatoriedade do ensino para as crianças
emigrantes e a necessidade de realizar o sonho da posse de uma
casa como símbolo de segurança económica
levou sim a que desde muito cedo uma significativa percentagem
de mulheres emigradas tivesse ingressado no mercado de trabalho
logo após a chegada ao Canadá. Se não como
assalariadas e com contratos de trabalho fizeram-mo executando
trabalhos irregulares como limpezas e guarda de crianças.
Uma coisa é certa: o trabalho árduo estava-lhes
nas veias, uma herança das actividades múltiplas
executadas nas ilhas.
Alguém me perguntava recentemente em S. Miguel se a emigração
teria iniciado o processo de emancipação da mulher
açoriana sou levada a considerar esta possibilidade muito
seriamente, particularmente no caso daquelas que saíam
dos Açores e das que ficaram conhecidas como as canadianas
ou seja mulheres que permaneceram nos Açores durante
vários anos criando os filhos que eram gerados a cada visita
do marido e que aguardavam o tão almejado «ele vem
de vez» - sem nunca terem posto os pés no Canadá.
Das que regressaram e agora encontram-se espalhadas por toda
o arquipélago voltaram mais por imposição
do marido do que por vontade própria. A maioria é
de opinião que regressando aos Açores perderam muita
da sua autonomia.
O trabalho libertou a mulher açoriana que emigrou. Todavia,
a iliteracia constituiu no novo país uma prisão
bem mais forte. É esta a grande batalha que as novas mulheres,
filhas da emigração, têm de ganhar através
do enriquecimento intelectual sem deixar de entender e aceitar
as suas raízes. Elas farão sem dúvida justiça
celebrando a memória das suas avós.
«
A vida foi outra. Aquela coisa do acanhamento que
a mulher tem nos Açores, a vergonha...tudo isso passou.
A gente tem que viver. Eu perdi muito disso no Canadá.
Não ia deixar que fizessem pouco de mim. (...)»
Esta força de Maria Júlia que vi na maioria das
mulheres entrevistadas nas histórias felizes que decido
contar fez do Canadá o paraíso das mulheres. Analisando
as suas conquistas com um olhar honesto e desinteressado, desprovido
de academismos ou intelectualices - a palavraé minha, perdoem-me
a ousadia podemos sem dúvida afirmar com orgulho
que muitas conquistaram o seu paraíso. O preço,
este, não o podemos julgar, mas aceitar com humildade.
É o nosso passado!
Muito Obrigado
PS: Se pretender comentar este trabalho pode fazê-lo através
dos emails:
humbertaa@hotmail.com
ou humberta.araujo@rtp.pt
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