ESTÓRIAS DA IMIGRAÇÃO NO FEMININO – PARAÍSO PARA AS MULHERES, INFERNO PARA OS HOMENS

Por Humberta Araújo

Boa tarde a todos e todas

Muito obrigado ao José Ferreira pela oportunidade que me deu para aqui estar neste aniversário da Adiaspora.com e partilhar convosco o meu trabalho de investigação que iniciei o ano passado sobre a vida das mulheres açorianas que emigraram para o Canadá a partir da década de 50 e que regressaram ao arquipélago.

Muito obrigado à organização e a todos aqueles e aquelas que têm dado o seu tempo e energia para escrever uma página na saga esquecida da mulher emigrante.

E porque o tempo é de reflexão é bom que recordemos o sacrifício e a abnegação das portuguesas no caminho da emigração. É consolador descobrir as suas estórias e procurar nelas força para acreditar e prosseguir nos nossos caminhos.

Obrigado por falar de mulheres sem voz que das flores a S. Miguel do Ontário à British Columbia fizeram a história da emigração.

A terra espera um milagre…

Estórias da emigração no feminino – Canadá: Paraíso para as
Mulheres-inferno para os Homens.

Talvez muitos de vós questionem o porquê deste título. Haverá quem discorde ou quem julgue que finalmente se faz alguma justiça aos homens e às mulheres que desde 1953 iniciaram a grande saga da emigração.Todavia neste título há a considerar que o Canadá não foi um paraíso para todas as mulheres. Para muitas e na minha pesquisa falei com algumas delas, este país foi um autêntico inferno, que se deveu em parte a doenças do foro psicológico resultantes do brutal corte do cordão umbilical com a ilha. Como escreveu Edite Noivo «amongst the most prominent burdens are those brought about by being uprooted from one´s cultural, social and effective milieu; this is, in itself, a rather devastating experience resulting in a variety of psychological, emotional, and identity coasts.»

Da inadaptabilidade a um novo sistema de vida, de trabalho e de família, à desintegração da estrutura familiar que durante séculos suportara a comunidade na ilha, à dificuldade na aprendizagem da língua dada a falta de um sistema integrado de apoio à mulher emigrante, e as condições climatéricas foram factores que influenciaram negativamente a adaptação da mulher açoriana. A somar a estes factores estava ainda a cultura machista, particularmente importada de S. Miguel que em muitos casos obrigou a mulher a ficar em casa, tal como era costume na ilha. Não podemos também deixar de considerar a violência doméstica, que no Canadá desenvolvia na altura (estamos a falar das décadas de 50 a 60) contornos bem mais gravosos pelo facto destas mulheres, na sua maioria ainda muito jovens e com filhos não poderem contar com a ajuda da mãe, da avó, ou de uma amiga e confidente.

Para os homens o novo país foi também o paraíso. Libertaram-se do pesado jugo paternal, do senhorio e da miséria. Embora de início sós e enfrentando enormes dificuldades viam a pouco e pouco o fruto do seu trabalho. Com o tempo reuniam as suas famílias e de regresso aos Açores eram respeitados e até invejados pelos seus compatriotas. Aos senhores da terra não precisavam tirar o chapéu nem sujar na lama os pés descalços. Estas são as histórias de sucesso.

Mas e fugindo um pouco ao título deste meu trabalho quero dar-vos uma pequena imagem de como se iniciou a emigração das mulheres para o Canadá e nesta História de muitas estórias que faltam contar. 1954 é definitivamente o ano em que inicia o processo emigratório de mulheres açorianas para este país. Nos registos de passaportes emitidos a emigrantes pelo Governo Civil do Distrito de Ponta Delgada, na ilha de S.Miguel da qual saíram os primeiros significativos grupos de homens emigrantes, estão os primeiros processos das mulheres.

Convém no entanto recuarmos um pouco na história do processo emigratório dos Açores para o Canadá. No ano de 53 há que relembrar algumas datas importantes, entre elas o sábado 14 de Fevereiro dia em que a imprensa micaelense deu conta das diligências realizadas pelo governo do Distrito Autónomo de Ponta Delgada no sentido de e, citamos «solucionar as graves dificuldades provenientes do excesso populacional» das ilhas. Esta, como se sabe foi a bandeira oficial para justificar a necessidade de saída de açorianos. Contudo, esta necessidade tinha raízes bem mais profundas, conforme atestam muitos autores. A propósito referem Luís Mendonça e José Ávila em Emigração Açoriana séculos XVIII a XX (…) « mais do que um hipotético excedente demográfico, o arquipélago padecia de uma deficiente organização da actividade económica.» Numa perspectiva política há que considerar que na altura não era muito conveniente reconhecer as fragilidades económicas e sociais do país e por arrastamento as ilhas adjacentes. Por isso o excesso populacional transpirou de todo o discurso oficial. É a imprensa, o principal organismo que dá conta das primeiras diligências para abrir a emigração aos Açores. É também a imprensa que testemunha o envio para Ponta Delgada de um membro da Junta da Emigração, organismo criado pelo governo português em Outubro de 1947 para estabelecer os «princípios e as disposições relativas à protecção do emigrante e ao condicionamento da emigração que fosse autorizada».

Convém talvez recordar que em Março do mesmo ano a emigração portuguesa havia sido suspensa temporariamente ficando assim por definir as normas relativas à emigração logo que autorizada. Situação ultrapassada em Outubro de 47 com a criação da Junta da Emigração, organismo dependente do Ministério do Interior.

Para os Açores a abertura da emigração serviu para aliviar os enormes problemas advindos da deficiente gestão da frágil economia açoriana e proporcionar aos homens e mulheres das ilhas alguma esperança num futuro mais digno.

A criação deste departamento especial, cujas competências nas então chamadas «ilhas adjacentes pertencia aos governadores dos distritos autónomos, na parte aplicável para o presidente da junta de Emigração» foi crucial na história da Emigração portuguesa pois veio analisar as circunstâncias em que assentavam os acordos internacionais e contratos de trabalho. Tinha também a incumbência de defender o emigrante protegendo-o no seu próprio país contra os angajadores e intermediários. É então a Ponta Delgada que chega o primeiro membro da Junta da Emigração, para preparar a primeira corrente emigratória para o Canadá. É ele Mário Ferreira da Costa, que vão ter o oportunidade de ver em fotografia no final desta intervenção, que de desloca a S. Miguel como inspector «para estudar em pormenor a possibilidade da saída de micaelenses para o Canadá.»

A 16 de Fevereiro de 53 realiza-se a 1ª reunião entre Aniceto dos Santos, o então Governador do Distrito no Governo Civil, e os representantes da Junta da Emigração «para tratar em pormenor da nova corrente emigratória, a estabelecer para o Canadá, sob o Patrocínio da Junta de Emigração». A reunião decorreu no Palácio da Conceição em Ponta Delgada. Na sequência destes esforços os primeiros 20 homens micaelenses partiam para Lisboa. Dois não passam nas segundas inspecções: um porque havia feito uma apendicite, o outro por causa da tenção alta. Aliás conta-se que o mesmo foi incentivado pelos colegas a beber um copito para relaxar. Mas não aceitou e ficou pelo caminho. Estes 18 pioneiros, todos solteiros é importante ressalvar, deixam Lisboa no Satúrnia a 8 de Maio de 53. Esta teria sido «uma experiência cautelosa e prudente» mas que serviu para que os patrões canadianos, conforme escreve Abel Dinis no Correio dos Açores « verificar que o emigrante açoriano é, por índole própria, trabalhador e ordeiro (…) e que se adapta admiravelmente aos mais variados ofícios».

Na sequência desta experiência chega a Ponta Delgada a 27 de Outubro de 53 uma Junta de Inspecção para dar cumprimento aos processos legais que levariam ao Canadá em 1954, 951 açorianos a esmagadora maioria de S. Miguel um número que representa, sem dúvida, o início do grande movimento emigratório para este país. De novo em Ponta Delgada Mário Ferreira da Costa acompanhado pelo médico José Dias Henriques procede à 1ª inspecção de homens e mulheres interessados na emigração. Iniciava-se então uma reorganização das listas já existentes nas Câmaras Municipais de pessoas que desejavam emigrar .

Estas inspecções, nas quais participaram as mulheres dos futuros emigrantes que já eram casados e a sua maioria com filhos, decorram nas instalações do antigo Hospital de Ponta Delgada, onde actualmente está instalado o Serviço de Atendimento Urgente. É que quando os homens «iam fazer os papeis» faziam-no na companhia das esposas e dos filhos, conforme me confirmou Rui Guilherme de Morais tradutor da equipa de inspectores canadianos. «As mulheres – disse-me – vinham junto com os maridos para a inspecção. A questão é que ao Canadá interessava - e isso sabíamos pelas conversas que se tinha nos bastidores - que estes homens se canadianizassem e se fixassem no país. Daí que nas ilhas o grupo familiar ficava já pronto para emigrar logo que os homens reunissem as condições indispensáveis para mandar buscar as famílias.»

Como se sabe os candidatos a emigrantes em 54 deviam ser « sexo masculino, entre os 20 e 35 anos, habilitações literárias mínimas – a então 3ª classe da instrução primária - robustez física devidamente comprovada por radiologia do tórax, filhos só até três, capacidade financeira para as despesas de deslocação – nesta altura falava-se de 10 contos. Micaelenses com profissões de trabalhadores agrícolas e vinhateiros estavam no topo da lista.

Nestas inspecções participou uma equipa canadiana composta pelo diplomata Odilon Cormier adido da Emigração na Embaixada canadiana em Paris que se fez acompanhar pelo funcionário da Polícia de Emigração Percy Colville e o médico Pierre Bélanger. Esta equipa trabalhou em S. Miguel durante 5 meses «ininterruptamente» conforme palavras de Aniceto dos Santos no discurso de recepção às missões do Canadá, do Ministério da Economia e Junta de Emigração a 19 de Março de 1954. Nas outras ilhas o trabalho de inspecção também decorria por José Neves Belo membro da equipa da Junta de Emigração chefiada por Ferreira da Costa.

O adeus das mulheres no Molhe Salazar
Até ao reencontro

Traçamos aqui um pouco da história que nos leva aos primeiros passos das mulheres açorianas em toda esta saga emigratória. No dia 22 de Março de 1954 os primeiros 330 homens chegavam com as suas famílias ao Molhe Salazar. Dos 951 permitidos pelo governo canadiano para aquele ano todos foram dos Açores conforme decisão expressa do governo português. Em 54 homens de outras ilhas só foram em pequeno grupo neste dia 22. Conforme os documentos da época, destes 330, 241 homens eram solteiros e 89 casados. Conforme relata a imprensa … «Destes, das ilhas do Oeste foram 54 emigrantes assim distribuídos: 20 Terceira, 16 Pico, 9 Flores, 6 Graciosa. S. Jorge e Corvo 1 homem de cada.»

Alguns sorridentes, outros chorosos agarrados aos braços dos amigos e saboreando as últimas carícias das suas mães, esposas e noivas eles levam as suas malas de cartão e as sacas de pano com alguma comida, onde a mão da mulher açoriana deixou o seu traço em algumas delícias da genuína gastronomia das ilhas. Partiram no paquete HOMELAND com violas da terra, bandeiras portuguesas e quadros do Arcanjo, Gabriel. Seguem-se-lhes no dia 23 de Abril mais 450 homens de S. Miguel no HOMELAND e 4 dias mais tarde partem mais 171 micaelenses no Paquete Nea Hellas todos rumo a Halifax, na Nova Scotia.

Com este magote de homens longe da terra começava uma nova página na vida de muitas mulheres açorianas que mais tarde as levaria a uma terra estranha e que muitas aproveitaram para conquistar uma autonomia e liberdade até então nunca conhecidas nos Açores. (…)

É portanto justo afirmar que o dia 24 de Janeiro de 1954 marca a saga da emigração no feminino. A primeira leva de passaportes emitidos a mulheres dá-se em Janeiro de 1954. Catorze registos são assinados no Governo Civil do então distrito de Ponta Delgada a 14 mulheres e mais de duas dezenas de crianças.

Nos passaportes a preto e branco, o seu olhar é assustado … bem o retrato de uma época onde a interrogação preenchia o grande horizonte da Ilha. Os requisitos legais são cumpridos à risca a par com os maridos.

Uma vez que me faltam confirmar ainda alguns dados de outras ilhas vou reportar-me só a S. Miguel porque foi a ilha com maiores taxas de emigração na década de 50. No todo nacional e de acordo com números da Junta da Emigração: «no total da Emigração portuguesa (1950-69) para o Canadá os 3 distritos apresentam 60,3% do total: destes 48,1% vinham do distrito de Ponta Delgada» MC MARINHO Emigração Portuguesa desde 1950.

De 25 de Janeiro de 1954 a 31 de Março do mesmo ano foram pedidos 479 passaportes por mulheres micaelenses. Durante este período quase desaparecem os pedidos de passaportes para os Estados Unidos da América, Brasil ou Bermudas. A partir de Abril do mesmo ano e até Dezembro de 1955 as emissões para o Canadá são praticamente nulas. Novo grupo inicia-se em Janeiro de 1956 mês no qual são emitidos 103 passaportes para homens e 13 para mulheres. A 1 de Fevereiro de 1954 estavam já carimbados meia centena de passaportes conforme atestam os registos em S. Miguel.

Uma vez que este não é um trabalho estatístico, e dadas as limitações das fontes, não nos é possível apresentar dados concretos sobre as datas de partida ou garantir que todas as mulheres com registos de passaporte acabaram por embarcar para o Canadá, uma vez que muitas nunca chegaram a pôr os pés neste país aguardando, em alguns casos durante dezenas de anos, a vinda “ de vez” do marido. Por exemplo, no Concelho do Nordeste ilha de S. Miguel muitas destas mulheres, que literalmente nunca puseram os pés no Canadá, ficaram conhecidas como as canadianas. Como aqui vimos e embora se possa comprovar por concelhos quem são os primeiros 951 homens que emigraram em 1954 não foi encontrada qualquer indicação oficial da data de partida destas mulheres. Enquanto em 54 os jornais e rádio micaelenses registam o adeus em massa destes homens, o silêncio é total quanto às mulheres, que não tendo sido objecto da pena dos jornalistas ou das câmaras dos fotógrafos de altura, foram relegadas ao esquecimento.

Todavia, os documentos relativos às emissões de passaportes comprovam que é a partir de 1954 que elas iniciam os processos burocráticos que as levarão ao Canadá, seguindo as pisadas dos maridos.

Mulheres solteiras, casadas

Num pequeno à parte gostaria de reafirmar que nem todas as mulheres que se aventuram nestes primeiros anos para o Canadá são casadas. Foi o caso de Maria Júlia de Água de Pau freguesia do Concelho da Lagoa de quem falarei um pouco mais tarde. Algumas, portando vão sós, solteiras … muito poucas, contudo. Iam destinadas ao trabalho doméstico ou outro através de contratos de trabalho. Contudo, a grande maioria das mulheres inicia o processo de emigração para acompanhar o marido e dar vida ao objectivo da lei canadiana de junção das famílias.

Esta uma realidade comprovada por Berta Reis que se presume ser a primeira açoriana, natural da freguesia de Rabo de Peixe na ilha de S. Miguel a pisar solo quebequense a 5 de Maio de 1955. Por pouco não acompanhou o marido na viagem do HOMELAND em 1954. Poderia ter sido a única mulher açoriana no meio de mais de três centenas de homens. E não o foi, disse-me o ano passado em Montreal, porque a equipa médica «quando me auscultou percebeu que eu estava de esperanças. Mas isso eu já sabia porque a menstruação já me tinha faltado.»

Mas quem são estas primeiras mulheres emigrantes.

Partem mulheres que não sabem assinar. Poucas. Segundo Guilherme de Morais, embora a escolaridade mínima fosse importante para a selecção dos homens, no caso das mulheres o que acontecia era que muitas iam para a escola para obter o diploma nem que fosse só para escrever o nome.» Alguns passaportes testemunham o analfabetismo destas mulheres, como foi o caso de Diamantina Silveira hoje viúva, natural da ilha de S. Jorge onde nasceu em 1908. Emigrou já tinha mais de 50 anos e que conheci agarrada ao terço na sua ilha Natal já com mais de 90, junto dos seus familiares mais próximos.

Todavia as primeiras emigrantes são na sua maioria casadas com filhos. Levam consigo a terceira ou quarta classe, mas acima de tudo transportam a cultura das ilhas. São sem dúvida as guardiãs dos usos e dos costumes. Levam no currículo o trabalho no campo, o manejo do gado, a apanha da lenha e das lapas, as artes da cozinha, as rendas e os bordados. Nos olhos acartam as lágrimas das mães e avós que ficaram; na alma o terço, o Espírito Santo, as ladainhas e as novenas, os registos do Santo Cristo e as coroas da Santíssima Trindade. São caminhadas que a História não registou tão acostumadas eram as suas estórias .

Com a partida dos maridos e dos noivos, elas continuaram nas ilhas na guarda do lar...por algum tempo… para mais tarde o embrulhar numa manta de retalhos, e o transportar para longínquas paragens com cheiros a salsa e coentros, cebolinho, molho de vilão e cominhos. Até lá ficam à espera das cartas e algumas economias.

A liberdade mete medo mas torna a mulher mais rija

A pouco e pouco a partida dos homens inicia nas mulheres açorianas um longo e lento processo de transformação que afecta não só aquelas que partiram, mas de uma forma peculiar também as que ficaram porque se lhes abriam portas até então desconhecidas, entre elas a possibilidade de seguir uma irmão ou irmã, ou arranjar um casamento com um homem emigrado – e não nos podemos esquecer que muitos dos homens solteiros e descomprometidos que emigraram a partir de 53 acabaram por regressar aos Açores para arranjar mulher para casar. Muitos conhecimentos foram feitos através de cartas onde a necessidade de arranjar companheira da sua terra nem sempre permitiu que homens e mulheres tivessem tido o tempo suficiente para se conhecerem. Por outro lado abria-se também caminhos através de contratos de trabalho.

Podemos então dizer que de uma forma muito ténue para as mulheres casadas que viam os homens partir o desconhecido bate-lhes à porta disfarçado num pouco de liberdade tímida que lhes vai preparando para a profunda transformação que se irá operar nas suas vidas.

De acordo com os documentos oficiais verifica-se que estas mulheres ficam então à guarda dos sogros ou dos pais, obrigadas a fornecer às autoridades o nome e endereço do parente mais próximo.

Apesar desta prisão que garantia que elas não fossem abandonadas sem meios materiais que lhes permitisse viver até se juntarem aos companheiros ou ao regresso destes , algumas mulheres, após a partida do impenetrante (assim chamado oficialmente o homem que partia), conseguiram, mesmo assim, viver o seu direito a uma autonomia condicionada quando provavam ser donas de bens próprios para o sustento na ausências dos maridos.

Mesmo assim tinham de apresentar um termo de responsabilidade assinado pelos pais ou sogros, documento este que carecia ainda do carimbo da Junta de Freguesia, entidade responsável por atestar a verdade dos termos de responsabilidade.

Outras mulheres ficavam à guarda dos chamados “homens de bem”. Uma destas nossas avós de S. Miguel ficou à guarda de um comerciante que se comprometia sustentá-la «com alimentos e outros» enquanto o marido se encontrasse ausente.

Para inúmeras mulheres, esta dependência do jugo familiar ou de outro, foi ao mesmo tempo um duro retrocesso nas suas vidas. E, isto porquê? Há que compreender que para uma grande maioria de jovens mulheres o casamento significou uma libertação há muito desejada do jugo paterno.

Como terei oportunidade de vos mostrar através de alguns depoimentos, a vida na família era extremamente difícil, dividida pelos afazeres domésticos e do campo, o que para muitas não deixava tempo para outras actividades que lhes permitisse alguma autonomia de movimentos, pensamento ou de criatividade.

Não pretendo aqui afirmar, pois seria naíve da minha parte fazê-lo, que o casamento foi a via para uma vivência autónoma na plenitude que sonharam. Todavia, deixou que muitas ao assumirem a responsabilidade de gerir a sua casa conhecessem um espaço próprio e autónomo que lhes permitiu gerir as suas vidas e decidir das portas para dentro. Com a partida dos maridos recaíam sobre elas, de novo, os olhares castradores das sogras, dos parentes, da comunidade e da própria Igreja. Atendendo ao seu baixo nível de escolaridade a autonomia no novo mundo foi reconquistada pelo trabalho árduo ao qual não estavam alheias. Obrigadas desde meninas a responder aos diversos desafios derivados das variadíssimas tarefas que tinham de desempenhar no espaço doméstico feminino, e no campo mais vasto do trabalho masculino, como por exemplo na agro-pecuária e em algumas industrias como o chá, ou a espadana, ficaram todavia talvez melhor preparadas para conseguir conquistar, de uma forma muito particular, as dificuldades do novo mundo. A mulher emigrante contactou muito de perto com a dureza do trabalho a partir dos sete a oito anos de idade ao ajudar a família nas tarefas domésticas que consistiam no apoio aos irmãos mais pequenos, limpeza da casa ou preparação dos alimentos restando o trabalho nas novidades da terra junto dos pais que para além da terra podiam ter gado, porcos ou galinhas. Isto implicava muitas horas partilhadas com os adultos na recolha dos cereais ou frutos - tais como as uvas para o vinho ou os figos para a aguardente - dependendo da ilha em que viviam.

A lavagem da roupa na ribeira era outra dura realidade que não descansava com as estações do ano. Algumas desde muito jovens foram trabalhar como «criadas de servir» (termo muito usado na ilha de S. Miguel) nas casas dos senhores ricos, deixando as famílias nas aldeias que só visitavam durante as festas anuais.

Este viver calejado deixava-lhes muito pouco tempo para outras actividades, como as rendas e os bordados que apesar de tarefas muito meticulosas e cansativas, eram fonte de prazer, convívio e de algum meio financeiro que revertia a favor da compra de bens essências para qualquer menina e moça.

De registar que algumas jovens não tiveram a aprovação paterna para dedicar algum do seu tempo as estas actividades pois eles exigiam toda a sua disponibilidade para o trabalho no campo, sempre que este surgisse.

Recordemos aqui algumas das actividades que lhes eram queridas: as rendas, os bordados, a preparação do linho, a costura. Este trabalho extra-efectuado depois da casa e do campo - permitia alguma realização pessoal num espaço único de criatividade e sociabilidade.

Convém ter presente que as rendas, os bordados, as colchas e tapetes de retalhos, as mantas e lençóis revertiam a favor do dote, enquanto que, por exemplo, os bordados permitiam amigalhar algumas míseras serrilhas (moeda da altura) para a compra de uns sapatos, meias, lenços de cabeça ou para os véus, sem os quais as mulheres não podiam entrar na Igreja. Sentadas no átrio das suas casas as jovens bordavam para os senhores que em muitos casos não pagavam com moeda o trabalho concluído mas sim trocado por tecidos – aqueles que havia e a gosto do lucro dos comerciantes. Com estes tecidos fazia-se, em casa, os vestidos domingueiros ou das festas da freguesia.

Muito deste trabalho era executado à noite à luz do candeeiro de petróleo, ou candeias a óleo de baleia, bens que tinham de ser igualmente poupados.

Para as jovens essas actividades puramente femininas tinham também uma componente cultural muito importante: iniciavam-nas no processo do casamento, cuja concretização fazia delas membros respeitáveis da sociedade e donas dos seus destinos.

Esta é uma caracterização muito sucinta da vida da mulher açoriana antes de emigrar, pelo menos daquelas que entrevistei o ano passado e cujas estórias estou a preparar para a edição de uma obra sobre a Emigração de Mulheres dos Açores para o Canadá. Se me permitem agora, e prometo ser rápida dado o adiantado da minha intervenção, vou partilhar convosco excertos de algumas estórias.

De São Miguel às Flores…do Quebec à British Columbia

Maria Júlia do Espírito Santo Almeida. Nasceu a 14 de Maio de 1928 no Concelho da Lagoa, freguesia Água de Pau. Emigrou solteira a 1 Agosto de 1958. Chegou a Montreal dia 2.Tem 74 anos

6H00 da manhã. “Estava um dia maravilhoso”. Maria Júlia, com o coração nas mãos, fecha a porta do nº 2 da Rua Valverde em Água de Pau, freguesia do Concelho da Lagoa. Tinha então 30 anos de idade. “O que mais me custou foi fechar as portas da minha casa. Deixá-la vazia. Fechá-la sem saber quando voltava. Foi um bocado duro. A gente pensa que uma casa não nos é nada, mas ela diz-nos qualquer coisa, e isso nos choca.” Encheu os pulmões de ar e orgulho: “Eu vou deixar a minha casa. Para onde é que eu vou? Mas depois tive que pensar no futuro e esquecer.”

Órfã de pai e mãe. Dá a volta à fechadura. (...) Era preciso coragem e dizer adeus à terra em silêncio.. “Depois de partir, paciência. Tive que pensar na outra vida que me esperava.”

(...) Partiu de táxi com algumas amigas, a irmã e os dois sobrinhos em direcção ao aeroporto de Santana, o aerovacas como era conhecido. “Depois apanhei um avião de 5 pessoas. Eu, a minha irmã, os dois pequenos e um rapaz. Fomos às 7 horas da manhã para Santa Maria. (…) A nossa viagem para o Canadá ia ser feita a 2 de Agosto à uma da manhã na Canadian Pacific. A viagem levou 11 horas.”

Aos 73 anos, quando lhe entrevistei – recordava com firmeza aquele dia em que deixou Água de Pau: “Foi um dia de alegria e tristeza. É o que lhe posso dizer. Deixei muitos amigos atrás. Fui a primeira emigrante que tivesse embarcado daqui para o Canadá, como turista.

“Chego a Montreal e fui separada da minha irmã. Fiquei completamente sozinha sem saber dela e sem falar nada em francês ou inglês.

(…).

Cansava-me de perguntar por minha irmã. Ninguém me respondia E o aeroporto não era o que é hoje. Eram umas tábuas a dividir as repartições. Até onde se punha as malas era feito de madeira. Passava-se ali de qualquer maneira. Não é como hoje. Eu vi o aeroporto velho. Ninguém português para explicar fosse o que fosse. Nem a minha própria irmã eu via.”

(…) “Ainda por cima eu estava descalça, com os sapatos na mão. Imagine! Estava com os pés inchados depois de onze horas de avião. Eu já não podia com os sapatos. Foi o meu primeiro sofrimento no Canadá. Depois eu vim a compreender que o homem do aeroporto devia estar a pensar: “esta rapariga deve estar doida”.

(...)

Perdida em Montreal …

“Era como se tivesse que ir para Vila Franca e acabasse no Nordeste. Perdi-me com as minhas cavalas que ia cozinhar para o jantar. Depois de algum tempo desencontrada na rua Saint-laurent encontrei um polícia e mandei-o parar. Depois expliquei-me meio português, meio francês: Monsieur, eu quero ir para Champ-de-Mars. Tenho aqui poisson. Quero fazer peixe pour dinner. O polícia estava numa daquelas motas que tinham uma barquinha ao lado. Eu já estava muito nervosa. Falava mal o francês, mas enchi-me de coragem olhei para ele e disse-lhe: Vous vá m’apporter a Champ-de-Mars. Apareceu na rua entretanto um senhor do continente e eu expliquei-lhe a minha situação. Ele lá disse ao polícia onde eu morava, e eu vim de mota para casa.”

Maria Júlia diverte-se ao contar este episódio, que demonstra bem uma força de vontade vulcânica. “Era Inverno. Estava com um capuz na cabeça e vim ali sentada com tanto frio, apanhando aquele sinó todo. Mas, apesar de todos estes contratempos ainda cheguei a casa a tempo de consertar as cavalas. Contei a história a minha irmã e aquilo foi um tal a rir as duas.”

Maria Júlia do Espirito Santo, natural da Lagoa numa moto da polícia de Montreal quando as jovens da sua idade na ilha iam já iam embalando os seus primeiros filhos. (...)

«Trabalhei na fábrica. Mais de 100 mulheres. No Verão o calor era tanto que a água escorria cara abaixo. Era uma injustiça. Mas foi preciso.»

Achei-me muito decidida...

Mulher açoriana, solteira num país estranho e longe da terra, da língua e da sua bandeira descobriu-se “muito decidida. A vida foi outra. Aquela coisa do acanhamento que a mulher tem nos Açores, a vergonha...tudo isso passou. A gente tem que viver. Eu perdi muito disso no Canadá. Não ia deixar que fizessem pouco de mim.

(...)

FIM


Isabel da Conceição Resendes Ferreira Armas, viúva. Nasceu em Santa Cruz das Flores a 16 de Fevereiro de 1935. Imigrou para a provincia da British Columbia aos 26 anos a 17 de Março de 1958. Vive actualmente em S. Miguel

Eram os doces tempos da adolescência. O Verão passara-o entretida nas idas à ribeira, nos afazeres da casa e do campo, nas festas religiosas, arraiais e nos passeios ao calhau para a apanha das lapas. Isabel da Conceição, nasceu na parte leste da ilha das Flores, zona que viu distribuídas as primeiras dadas de terra por Pedro Fonseca, no longínquo século XVI, hoje, Vila de Santa Cruz.

Outubro estava à porta. Adivinhava-se o tempo das grandes caminhadas até aos campos de araçás. Com as irmãs, Isabel da Conceição juntou um grupo de amigas e lá se aventurou até à Caveira para a apanha dos frutos.

Isabel da Conceição Resendes Ferreira Armas, natural de Santa Cruz das Flores, Vila que viu muitos corsários a embater nos seus ancoradouros, revelou desde cedo um espírito forte. A vida durante a juventude foi difícil” apesar de não nos faltar o pão à mesa”. Vivia-se da lavoura paterna “ que era suficiente para casa. Mas dinheiro... bem sabe.”

(...)

O dia a dia das raparigas passava-se à volta da cozinha. “Minha mãe ensinou-me a mim e às minhas cinco irmãs a fazer pão, a cozinhar e a limpar. Enfim a lida de uma casa.”

(…)

Na casa da família Ferreira a gestão do trabalho doméstico incluía divisão de tarefas. “Eu e a minha irmã mais velha dividíamos os afazeres. Uma semana uma fazia o trabalho da cozinha, a outra o dos quartos. E na semana seguinte a gente trocava. Era assim. Lavávamos a roupa à mão na ribeira.”

(...)

O nível de escolaridade era baixo. “Não completei a 4ª classe. Tinha quase para 12 anos e já me achava uma mulherzinha. Não quis ir mais para a escola. Os meus pais também concordaram porque eu já ajudava muito em casa.”

A escola primária de Santa Cruz também foi palco privilegiado para conhecer a realidade sócio-económica das ilhas. “Via-se pela maneira que se vestia. É verdade que havia roupas da América, mas outras pessoas não tinham...não tinham para vestir. Lavavam à noite para vestir no outro dia.

Era difícil. Mas pronto. Ultrapassou-se a pobreza. Mas não foi fácil.”

(…)

Os dias da juventude de Isabel Armas foram passados na pacatez da ilha, monótonos pouco abalados pelo exterior. “Notícias só se sabiam quando o navio Carvalho Araújo vinha de mês a mês.

Muitos ...muitos meses me lembra eu, do navio não poder fazer serviço para a ilha, porque o mar estava muito bravo. Uma vez o Carvalho Araújo chegou a estar três dias fora das Flores sem poder fazer serviço. Acabou por levantar ferro e ir-se embora. E nós a vê-lo partir sem saber quando podia voltar. Só regressava no mês seguinte.”

O casamento e a primeira viagem

(…)

O meu marido era da Ribeira dos Barqueiros e vinha cá baixo. Pediu autorização a meu pai para saber se podia falar comigo à varanda ou ao portão. E minha irmã foi a mesma coisa. Nunca caminhávamos sós, os dois. Estávamos sempre acompanhados por um irmão.

“Naquela altura pensávamos ficar nas Flores. Nunca nos ocorria sair para outro lado. Mas depois abriu a emigração e os horizontes das pessoas começaram a mudar.” Para muitas mulheres a saída da ilha só se deu através do casamento e da emigração.

A primeira mudança radical da vida de Isabel foi o casamento(…). “Para dizer a verdade eu não tive um casamento igual às outras raparigas. O meu noivo estava na tropa na Terceira. Eu casei... ou melhor...ele casou por procuração na Igreja de Santa Luzia, que hoje já não existe, por causa do tremor de terra. Mas recebi a benção nas Flores quando ele chegou.”

Até lá ficou com a sogra-madrinha com quem aprendeu a tarefa da ordenha das vacas.

“No início não foi fácil mas tive que aprender. A primeira coisa que pensei foi: será que vou conseguir tirar o leite todo? Os pulsos doíam-me muito, mas eu estava habituada a trabalhar. É que eu ia à lenha, dava a comida ao gado; trabalhava nas terras; eu sachava milho. Já em casa dos meus pais era assim.

(…)

“O meu marido” – recorda Isabel– “teve sempre uma grande vontade de emigrar. Muita, muita mesmo. É que não havia muitos dinheiros. Ele trabalhava nas terras e eu ajudava. Quando abria empreitadas da Câmara Municipal (…) era para lá que ele ia. Só aí é que fazia dinheiro.”

O pagamento, este demorava apesar do trabalho estar concluído. “Depois levava-se tanto tempo para receber aquele dinheiro. Às vezes era preciso vender umas batatas doces, que fazíamos com muita quantidade.”

(…)

Casados de fresco a ideia do marido de emigrar não o abandonou levando a que agarrasse a primeira oportunidade que surgiu com a abertura da imigração para o Canadá. “Ele não tinha ninguém no Canadá. Foi para lá trabalhar sozinho. Partiu a 25 de Março de 1957. Fiquei ainda um ano, em S. Miguel. Embarquei depois a 17 Março de 1958.”

Papeis e mais papeis

Embora não tivesse partido na companhia do marido, Isabel Armas, como a maioria das mulheres concluíra o seu processo burocrático com o marido. Processo exaustivo que incluía entre outros testes de aptidão física e de saúde mental. O dia da partida esperou-o com ansiedade. (…) “Lembro-me bem desse dia quando tive de apanhar aquela avionetazinha para Santa Maria.” Fui para Santana de manhã. O aeroporto era nuns pastos com vacas. E as vacas viam a avioneta caminhar no ar e caminhavam na carreira com o avião…e eu disse: oh meu Deus...mas pronto. Lá ia eu.” (…). “O que é que pensei durante esta viagem? Eu cá sei! Foi uma viagem mais demorada do que eu pensava. Eu só dizia...estou cada vez mais longe...cada vez mais longe. Levamos 10 horas para chegar a Nova Iorque na TWA.”

(…)

Vancouver...do sonho à realidade

Depois de muitas horas de voo, à chegada a Vancouver esperava-lhe o marido. “Quando olho para mim estava ele e outro amigo, dentro do avião. “Parece impossível terem deixado entrar alguém no avião. Hoje em dia nem por pensamento.” Quando cheguei, o jantar foi feito em casa de uns amigos, e depois fomos para o nosso apartamentozinho. Uma coisa mesmo pequena. Mas tinha cozinha, quarto de sala com sofá cama, e a casa de banho. Era só isso.”

Nesta primeira habitação compartilhada com outros imigrantes não havia açorianos. “Nas casas ao lado, e em frente, sim. Mas na nossa não! Osportugueses tinham uma coisa. Tinham que estar todos juntos, não longe unsdos outros.” (...)

Da imigração uma coisa tinha a certeza. “Eu tinha era que trabalhar.Porque num país onde não se tem nada há sim que trabalhar. Nos primeirostempos achei tudo tão diferente. As comidas eram o pior. Eu fazia damaneira que sempre fiz, mas não tinham o mesmo sabor da nossa terra. Eugostava muito das minhas couves que lá não usavam (…)Fizemos um pequeno quintal e era tal e qual nas Flores. “Couves, nabos alfaces, cenouras...uma coisinha de tudo.”

…Eu queria o sabor dos temperos do lugar que eu tinha deixado para trás. Naquele tempo não havia ainda lojas portuguesas em Vancouver. Eu ia a uma loja italiana onde comprava também o bacalhau. Fazia também as nossas sopas de feijão, à minha maneira, e nada daqueles feijões enlatados que eu não gostava nada daquilo. Com o tempo fui-me habituando às novas comidas.” Mas um encontro especial deixa-a particularmente feliz: um encontro com os cominhos!

“Fiquei muito contente quando encontrei na prateleira da loja italiana os cominhos. Podia finalmente aproximar-me dos sabores das Flores. “ (…)

À volta da mesa do mordomo

Em Vancouver também a cozinha de Isabel Armas exalava os aromas típicos das ementas dos dias de festa dedicados a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santa Cruz. A estes dias vieram juntar-se aqueles dedicados ao Espirito Santo. “Os nossos açorianos das Flores mandaram vir uma coroa da Califórnia e fizeram a primeira festa. A minha sobrinha tinha trezeanos quando ela foi rainha da coroa. Ela hoje tem 46. Veja lá, já foi há uns bons anos. Foi em 1968 o ano da primeira festa do Espirito Santo em Vancouver.” (…)

A primeira festividade religiosa em honra do Espirito Santo marcou também uma profunda mudança nos hábitos desta mulher das Flores já enraizada nos costumes de uma cidade canadiana que se expandia e modernizava. “Foi o ano que nos mudamos para o farm. “Duzentas e sessenta e uma milha desviada de Vancouver. Não gostei desta mudança. Estava longe dos meus irmãos que entretanto tinham vindo para o Canadá. (...)

Uma das situações mais difíceis que teve de enfrentar e superar foi o grau de alcalinidade das águas na quinta. Mulher de apreciar a sua chávena de chá, até este pequeno prazer foi-lhe retirado. “Quando fervia a água para o chá ficava sempre uma goma por cima e por isso a minha irmã Isabel me dizia sempre: quando vieres a Vancouver leva muita água para fazeres o teu chá.”

E fez-se uma vez mais mulher. “Depois disse para mim mesma: eu tenho queme habituar. Tenho que ser mulher. Tive mais de 10 anos lá e tinha que ser.”

Estar agora nos Açores é estar em Ponta Delgada, uma cidade. “Eu adoro a minha terra...as Flores. Vou lá muitas vezes. Compramos recordações e matamos saudades. Mas para viver não. Estou feita a um outro ambiente. Voltar ao Canadá de vez? “Agora viúva?Não”.

Fim


Estes são pequenos excertos de estórias verídicas. Actualmente São escassos os estudos sobre a emigração de mulheres dos Açores para o Candá. Trabalhos como os de Edite Noivo, Manuela Marujo, Fernando Nunes entre outros são já referências importantes para a História ainda por contar do fenómeno emigratório feminino.

Do que já foi escrito ainda por Apalhão e Pereira da Rosa, Salvato Trigo, Nuno Lopes, Carlos Teixeira, as mulheres ficavam nos Açores à espera que os maridos tivessem capacidade financeira para as chamar. Os maridos esculpidos pela cultura patriarcal das ilhas moldaram a forma de pensar e agir das mulheres açorianas que emigraram. Antes dos namorados e dos esposos o barro foi trabalhado pelos pais e irmãos. A figura paterna tinha um grande poder. Ao contrário do que se possa pensar o seu papel não se limitava, como aqui vimos, a uma existência omnipresente. A sua era uma existência física constante que limitava a autonomia feminina já duramente circunscrita ao poder absoluto da mãe. O pai, homem não só esperava a perfeita obediência aos cânones impostos pelo poder matriarcal por si legitimado, como impunha as suas próprias fronteiras, através da obrigatoriedade do exercício de tarefas puramente masculinas, sem as contrapartidas que os homens da casa fruíam.

Recordemos outra emigrante,Lusa de Sousa da Graciosa: Depois da saída da escola «o que eu fazia era ir para a agricultura com o meu pai. Ia respigar no tempo de ceifar o trigo e a cevada. Isto consistia em apanhar todas as espigas que caíam das mãos na ceifa. «Era uma maneira de a gente ter mais alguma coisa. Eu ia atrás do meu pai com uma tia minha viúva com seis filhos (…) a respigar. Juntava-se o que ficava atrás e fazíamos umas maúças que depois de bem secas ao sol esfregava-se num cesto de carreta para debulhar. Eu apurava aquela novidade para a gente.»

No Canadá as coisas passaram-se de forma muito diferente. Ao contrário de alguns autores que são de opinião que a maioria das mulheres ficou em casa por razões culturais ou pelo número de crianças da família, a minha experiência diz o contrário. Para já cada casal só podia candidatar-se se tivesse três filhos. Por outro lado, a obrigatoriedade do ensino para as crianças emigrantes e a necessidade de realizar o sonho da posse de uma casa como símbolo de segurança económica levou sim a que desde muito cedo uma significativa percentagem de mulheres emigradas tivesse ingressado no mercado de trabalho logo após a chegada ao Canadá. Se não como assalariadas e com contratos de trabalho fizeram-mo executando trabalhos irregulares como limpezas e guarda de crianças. Uma coisa é certa: o trabalho árduo estava-lhes nas veias, uma herança das actividades múltiplas executadas nas ilhas.

Alguém me perguntava recentemente em S. Miguel se a emigração teria iniciado o processo de emancipação da mulher açoriana sou levada a considerar esta possibilidade muito seriamente, particularmente no caso daquelas que saíam dos Açores e das que ficaram conhecidas como as canadianas – ou seja mulheres que permaneceram nos Açores durante vários anos criando os filhos que eram gerados a cada visita do marido e que aguardavam o tão almejado «ele vem de vez» - sem nunca terem posto os pés no Canadá.

Das que regressaram e agora encontram-se espalhadas por toda o arquipélago voltaram mais por imposição do marido do que por vontade própria. A maioria é de opinião que regressando aos Açores perderam muita da sua autonomia.

O trabalho libertou a mulher açoriana que emigrou. Todavia, a iliteracia constituiu no novo país uma prisão bem mais forte. É esta a grande batalha que as novas mulheres, filhas da emigração, têm de ganhar através do enriquecimento intelectual sem deixar de entender e aceitar as suas raízes. Elas farão sem dúvida justiça celebrando a memória das suas avós.

«… A vida foi outra. Aquela coisa do acanhamento que a mulher tem nos Açores, a vergonha...tudo isso passou. A gente tem que viver. Eu perdi muito disso no Canadá. Não ia deixar que fizessem pouco de mim. (...)»

Esta força de Maria Júlia que vi na maioria das mulheres entrevistadas nas histórias felizes que decido contar fez do Canadá o paraíso das mulheres. Analisando as suas conquistas com um olhar honesto e desinteressado, desprovido de academismos ou intelectualices - a palavraé minha, perdoem-me a ousadia – podemos sem dúvida afirmar com orgulho que muitas conquistaram o seu paraíso. O preço, este, não o podemos julgar, mas aceitar com humildade. É o nosso passado!

Muito Obrigado

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