A EDUCAÇÃO NA EVOLUÇÃO DAS COMUNIDADES LUSAS EM
TERRAS DO ALÉM-MAR
Por Ilda Januário
2° Aniversário de Adiaspora.com
17 de Janeiro 2004

Pano de fundo sobre
a situação da educação nas comunidades
Nesta primeira parte da minha comunicação, começo por fazer um resumo
da situação da educação na comunidade de Toronto, e isto tendo em conta que
temos muitas pessoas de fora do Ontário neste congresso:
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Somos uma das
maiores comunidades do Ontário com cerca de um quarto de milhão de pessoas,
sendo o português a 3a lingua mais falada, depois do inglês, em
Toronto e arredores (StatsCan, census 2001). Somos cerca de 10% dos alunos das
direcções escolares de Toronto.
-
Contudo somos,
ainda ao nível da 3a geração, uma das comunidades com o mais baixo
nível de aproveitamento escolar e de menor acesso à universidade
-
Até
recentemente, quando era possível obter estatísticas por grupo étnico nas
direcções escolares, sabia-se que os alunos luso-canadianos se encontravam em
elevado número nos serviços de educação especial, 3 ou 4 vezes mais do que a
média, sendo avaliados erradamente em muitos casos, como tendo dificuldades de
aprendizagem.
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As escolas na
área da comunidade portuguesa, com grandes concentrações de imigrantes, são das
que menor aproveitamento escolar e maior percentagem de alunos necessitando de
serviços de educação especial. Os pais não se davam conta…
-
O acesso a
universidade, que para a população geral do Canadá ronda os 30% (Doug Hart,
OISE/UT, recenseamento 2001), situa-se seguramente a menos de metade dessa
percentagem para a nossa comunidade.
-
Há indícios
que o mesmo se passa em todas as comunidades portuguesas no Canadá.
O que é que determina esta situação? É a situação de origem de classe
da nossa comunidade.
-
Éramos a 80%
uma comunidade de classe trabalhadora, ou seja em que o nível de instrução e
salarial era relativamente baixo, segundo ainda o recenseamento de 1996, por
exemplo, Ornstein eram dos mais baixos. Foi essa, inicialmente, a condição da
nossa entrada no Canadá, era o sindroma das “mãos calejadas”. Os imigrantes de
classe média que imigraram tiveram a tendência a estabelecer-se fora da
comunidade portuguesa, enviando os seus filhos para escolas mais diversificadas
dos pontos de vista étnicos e socio-económico. Assim, segundo Ornstein (2000),
somos o grupo étnico que:
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menos estudos
secundários e universitários tem
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mais jovens
que abandonaram o sistema escolar a seguir aos imigrantes da América Central
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Vínhamos de
um pais com as mais baixas estatísticas escolares da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico) – que conta 30 países, incluindo
Portugal e Canadá - portanto isto não se trata dum problema luso-canadiano, é
um problema português! Ainda recentemente (2001):
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Para a
população entre 15-19 anos de idade, o dobro desses jovens em Portugal trabalha
(20.3%), comparado com o Canadá (10.2%), sendo a situação nos dois países pior
para os rapazes (25% e 11.7% respectivamente)
-
35%
Portugueses completaram os estudos secundários comparados com 60% na UE
-
Vínhamos de um
país com um dos maiores índices de violência infantil (estamos no topo com o
México e os EUA) e baixo nível de auto-estima.
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Somos uma
comunidade desunida, como todas aquelas que se encontram em desvantagem neste
sistema:
- desunidas nas nossas expectativas escolares
- desunidas na acção político-social necessária para
fazer face a esta situação
Muitos aqui presentes dirão, mas isso já passou, estamos numa situação
em que já temos muitos profissionais, só que não os vemos porque saem da
comunidade. É verdade contudo todos os indícios mostram que mesmo a terceira
geração ainda sofre as consequências. Porquê? Porque os jovens imitam o que se
passa à sua volta, mesmo quando os pais, já educados ou nascidos aqui, têm
expectativas mais elevadas deles.
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como
comunidade apenas reflectimos o que se passa na sociedade em geral, em que os
pais e filhos de classe trabalhadora são desfavorecidos no sistema escolar.
Assim dizem-nos Curtis, Livingstone e Smaller (1992), p. 7:
“Working-class
kids always have, on average, lower reading scores, higher grade failures, higher
drop-out rates and much poor employment opportunities. We emphasize this
because these systemic class differences have been ignored or denied in many
studies of educational inequality as well as policy-making”.
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o sistema escolar e as escolas não respondem
em geral aos anseios e as necessidades das suas populações mais desfavorecidas,
não oferecendo soluções satisfatórias para os alunos em risco de abandonar o
sistema escolar ou com aproveitamento insuficiente para prosseguir os estudos a
um nível superior.
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O ensino
superior esta cada vez mais caro, sendo o custo médio de um diploma
universitário de 4 anos de quase $20,000, não incluindo livros e despesas
básicas de alojamento. O trabalho de verão já não chega para pagar as propinas,
como no meu tempo.
-
O sistema
escolar sabe exactamente quais as escolas que mais problemas se debatem e o que
fazer em termos de rendimento escolar. Contudo, continua a não haver maneira de
encontrar uma solução eficaz e global para solucionar este problema de classe
social.
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A educação
continua a ser uma questão com a qual se preocupam as mulheres. São elas a
maior parte das professoras, sobretudo ao nível primário, e ao nível das
voluntárias nas escolas e nas comunidades. Os rapazes são actualmente os que
mais se encontram em risco quando ao aproveitamento e ao abandono escolar.
-
A educação é
uma das questões que menos move o interesse e a vontade das nossas comunidades,
especialmente os líderes. Vejo só a recente polémica da ACAPO nestes últimos
dias, quanta tinta tem feito correr! Apesar de eu reconhecer que a questão do
associativismo é uma parte importante e válida do trabalho comunitário, que
apaixona sobremaneira a primeira geração, quando veremos nós a mesma atenção
ser dada ao tema educação?
Soluções: Face a
esta situação o que fazer?
Acho que o Congresso Nacional Luso-Canadiano deve dar uma atenção
especial a este problema dado que é endémico nas nossas comunidades,
especialmente providenciando uma pessoa paga para se consagrar a este assunto e
fornecer aos líderes, pais e activistas das comunidades os dados e diligências
necessários para fazer lobbying educacional no sistema escolar e político.
1. Temos que ser
politicamente activos.
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Apesar de
fazermos activismo escolar desde os anos oitenta, primeiro com a Associação de
Pais da Direcção escolar pública de Toronto (TPPA) e depois como Coligação
Luso-Canadiana para a Melhoria do Ensino, as pessoas activas nestas associações
constituem a ínfima parte dos activistas na nossa comunidade.
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Os líderes da
comunidade contentam-se em dar bolsas de estudo aos estudantes que conseguem
dar bom rendimento. Isso é muito bom mas não chega. E os outros, os alunos e
estudantes em risco de abandonar os estudos? Existe agora o Projecto Diploma
para alunos do secundário, que ainda está em formação, e o programa de
explicadores no Working Women Community Centre (WWCC) que acaba este ano – e
depois?
-
Em 1995, com a
eleição do Partido Conservador, entrámos numa situação de crise, apesar de
terem acontecido coisas boas, nomeadamente a redução do número de direcções
escolares, o “common curriculum” e os testes, ambos tendo ajudado a uniformizar
o currículo para cada ano escolar e a avaliar os resultados escolares ao nível
provincial. Temos agora prova sobre quais as áreas menos favorecidas, educacionalmente
falando, da cidade e da província . Mas não se fornecem recursos nem serviços
melhores às escolas nessas áreas... Ao contrário, houve cortes sistemáticos aos
programas e serviços, obrigando as escolas a recorrer a angariação de fundos
local, o que ainda alargou mais o fosso entre escolas em áreas pobres e áreas
ricas.
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Tive o desprazer de ser a presidente da
Coligação neste período tão duro. Quando o sistema escolar se sente atacado e
os professores se encontram desmoralizados, quem sofre são os pais e os alunos
mais desfavorecidos e toda a acção a seu favor cai “em cesto roto”.
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Agora, com a
eleição do partido Liberal há que pedir uma reunião com o novo ministro da
educação para pedir o seguinte (o que nos foi recusado anteriormente), armados
de estatísticas sobre as escolas públicas e católicas de menor rendimento e que
maior número de luso-canadianos têm:
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que se faça um
plano de assistência a essas escolas, incluindo recursos e serviços
-
que se peça um
plano de explicadores nessas escolas, em particular nas primárias. Plano de
mentores nas escolas secundárias de parceria com a comunidade.
-
Que se
incentive o acesso à universidade baixando as propinas.
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que se volta a
fazer do francês e das línguas internacionais uma matéria obrigatória, senão
acabo um ensino do português com consequências nefastas para o ensino
universitário.
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Que se
autorize e facilite o acesso das comunidades às estatísticas por grupo étnico
para se poder fazer um balanço da situação.
2. Temos que ultrapassar divisões dentro da
comunidade.
Como foi dito atrás, a maior parte das voluntárias e activistas em
educação são mulheres; os líderes de associações, clubes, igrejas e órgãos de
informação são homens (“organizações de cúpula). Teriam que trabalhar juntos
para ultrapassar divisões políticas, de género e de geração. Um caso recente, a
conferência de imprensa do Projecto Diploma em que Maggie Unção, jovem
dirigente do Projecto Diploma, é um caso encorajante. O cabeçalho da primeira
página do Sol Português de 16 de Janeiro diz isto mesmo: “Project Diploma
apoiado por organizações de cúpula”. Mas os jovens do Projecto trabalham com os
estudantes do secundário. É preciso começar muito mais cedo do que isso.
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temos que
sensibilizar constantemente a comunidade utilizando os ditos clubes,
associações, igrejas e órgãos de informação no trabalho de promoção da
importância da educação.
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Temos também
que trabalhar com outras comunidades étnicas que se encontram na mesma situação
de insucesso escolar.
3. Temos que
acarinhar os nossos voluntários mas não depender deles totalmente.
Não basta erguer monumentos aos voluntários (como aquela rocha no
Trinity-Bellwoods Park), há que acarinhá-los. O trabalho de advocacia e de
lobbying não se pode fazer sem o esforço voluntário de muitos. Não há trabalho
mais ingrato do que o que se tenta fazer no sistema escolar denunciando e
tentando remediar problemas de classe social. Há dois anos escrevi uma
comunicação para a Universidade de Luton (Januário, 2001) em que equacionei os
voluntários em educação a Dons Quixotes lutando contra os moinhos gigantescos
da classe e da etnia / raça, a que se veio juntar o da reforma conservadora do
sistema escolar. Trabalho ingrato mas não impossível.
Fui obrigada a desistir da liderança da Coligação, em Novembro 2003, por
razões profissionais e pessoais, mas queria partilhar convosco a minha
experiência e mensagem para que continuem a apoiar o esforço de todos aqueles e
aquelas que, desde os anos oitenta, tem batalhado pelo sucesso dos alunos e
estudantes luso-canadianos. O trabalho continua e não pode depender
exclusivamente de voluntários. Por isso faço um apelo às organizações de cúpula
para investirem seriamente neste tópico, energia e fundos, nomeadamente um
programa de explicadores e mentores mas também para se fazer advocacia e
lobbying ao nível político e escolar. Temos que ser
críticos, unidos e persistentes!
Bibliografia
Bruce, Curtis, Livingstone, David. W. & Smaller, Harry
(1992). Stacking the Deck. The Streaming of Working-Class Kids in Ontario
Schools. Montrea;: Our Schools/Our Selves Foundation.
Hart, Doug (2004, personal communication) StatsCan,
population 15 years and older, 2001 Census.
http://www12.statcan.ca/english/census01/
Januario, Ilda (2003). "Don Quixote and
the windmills of social class and ethnic origin: community attempts to improve
the situation of Portuguese-Canadian students in Ontario schools". In
Abreu, Cline & Lambert (ed.), The Education of Portuguese Children in
Britain: Insights from Research and Practice in England and Overseas(159-178),
Conference Proceedings, University of Luton, Nov. 19-21, 2001.
OECD. Table “Percentage of the youth population in
education and not in education, by age group and work status (2001). www.oecd.org/edu/
Ornstein, Michael (2000). Ethno-Racial Inequality
in the City of Toronto: An analysis of the 1996 Census. Toronto.
Statistics Canada, Census of Canada 2001. “Non-official
Mother Tongue Languages in Selected Ontario CMAs